quinta-feira, 7 de julho de 2016

AMIGO

“Amigo ! Amigo ! Não me deixa sozinho!”, eu disse, enquanto ele desfalecia, sem força para manter sequer sua cabeça erguida. No seu rosto, fraqueza, rendição. Não tinha mais a beleza que todos elogiavam, sua face era cadavérica e os olhos não fitavam coisa alguma.

Ele não morreu. Alguma melhora depois e já voltara a andar, subir sozinho no sofá ou na cama, apesar de ainda não se alimentar sozinho, dependendo do soro intravenoso para sobreviver. A magreza ainda era a mesma,a respiração , pesada e sofrida. O rosto continuava sem expressão. Eu o fitava e sentia saudades daquela barrigona  boa de acariciar, do seu peso no meu peito, da força enorme de suas articulações, da sua alegria quando eu voltava para casa. Mas, sobretudo, sentia saudades de quando ele me olhava com aquele olhar de gratidão por eu ter lhe dado um lar.
Na verdade, é quase certo que a gratidão que eu via em seus olhos não era senão a projeção da minha própria gratidão, a que eu sentia por sua companhia naqueles dias, seguramente os mais difíceis de minha vida. Dívida, estresse , me vendo à beira da falência, todo dia eu achava que iria quebrar mentalmente, cair em depressão ou em desespero, perder o controle, enfim. Bastava reencontrá-lo em casa , recebê-lo em meus braços e ganhar de presente aquele olhar para me esquecer de todo  sofrimento e agonia que queria me tomar cada minuto da minha vida e que levava, inclusive, boa parte de meu sono. O único porto seguro era tê-lo no colo, talvez por isso dormíamos tantas vezes abraçados, numa paz mútua.

 Nunca o vi como um filho, uma criança de quem eu precisava cuidar, mas sim como um bom amigo, que, mesmo sem falar minha língua, me entendia. Ou talvez falássemos a mesma língua sim, uma vez que quando eu imitava aqueles seus sons engraçados ele me respondia com os mesmos barulhinhos. Certo dia, enquanto ele parecia sem forças para se mover e seu  olhar estava perdido, eu voltei a imitá-lo, na tentativa sem esperanças de ter novamente sua atenção. Ele fez um esforço absurdo e alcançou meu colo. Eu mal contive as lágrimas.

“Amigo! Amigo!” eu falei, quase gritando, quando o vi convulsionar. Os dentes cerrados, os olhos em agonia. Estava claro que não havia tempo para socorro. Tomei-o em meus braços e falei, baixinho, “amigo, amigo”. Acariciei seus pêlos como sempre fiz, beijei sua cabeça. Testei o pulso várias vezes, procurei inutilmente ouvir alguma respiração. Me recusei a não tê-lo junto ao meu peito antes de chegar a hora de entregar seu corpo ao veterinário. Doeu como o inferno senti-lo esfriar. Pouco a pouco fui me sentindo sozinho e chorei tudo aquilo que ele tinha me impedido de chorar naqueles últimos meses.

O Gato (esse era mesmo seu nome)  havia vivido toda sua vida nas ruas, somente os últimos sete meses foram em minha casa. Gosto de pensar que foram melhores para nós dois porque os passamos juntos. Como bons amigos.


Obrigado, Gato !







segunda-feira, 9 de maio de 2016

BALA NA CABEÇA

- Ae, truta, como é que tu tem coragem de chegar na minha cara e falar que não tem a grana, seu arrombado do caralho ? Não é problema meu que o nóia do teu irmão é um pau no cu e  largou você e tua mãe aí com conta pra pagar. Tá certo? Você tem sorte que eu sou sangue bom e eu tenho consideração pelo teu finado pai ,por que o certo era meter uma bala na sua cara AGORA. Ta ligado?  Ó, vou te falar, se isso aqui cai nos ouvido do Sapo Boi, truta, já era, ele manda nóis partir pro arrebento e arregaçar com a tua família TODA .Ta ligado? Então SE VIRA, vai robá, vai dar o cu, não sei, mas me aparece aqui com a grana amanhã ! Ta certo ? AMANHÃ !

Mateus saiu de lá tonto. Os cambitos pretinhos tremiam que só faltavam se bater. Não sabe como não se mijou. Em casa, não quis ver a novela com a mãe e jantou em silêncio, apesar da insistência dela em fazê-lo conversar. Mentiu que na manhã seguinte não iria para a escola porque os professores estariam em greve. Era impossível esquecer aquele sujeito de rosto comprido e ossudo, com olhos esbugalhados, esfregando o cano gelado da arma na sua testa.

Sentiu um desespero que nunca tinha sentido. Onde iria conseguir aquele dinheiro todo? Passou a noite e a manhã seguinte pensando numa solução. Com o que ganhava vendendo amendoim no semáforo ia levar uns dois meses pra pagar a dívida, isso ainda se não tivesse que ajudar em casa. Mas tinha. As faxinas da mãe rendiam um bom dinheiro, mas que não dava pra aluguel, despesa e as necessidades da neném. Pra ele mesmo sobrava muito pouco. E ia pedir emprestado para quem se só tinha amigo e parente pobre igual a ele?
Pensou então numa saída. Lembrou que havia um jeito fácil de roubar, a molecada fazia isso direto e eles diziam que era bem pouco arriscado, bastava chegar na avenida na hora do engarrafamento, enfiar o braço dentro de algum carro e pegar o que desse, relógio, celular,bolsa. Nem precisaria ir armado, era só colocar a mão por dentro da blusa para fazer o dedo indicador parecer o cano de um revólver .  “Escolhe carro de mulher, mulher se caga a toa, entrega fácil.”, aconselhou um amigo por whatsapp.

Fazer o que, era o único jeito. E lá se foi ele. Ficou sentado de cócoras debaixo do viaduto,atrás de uma coluna para não chamar a atenção, suando com o calor e assistindo a hora do rush se formar. Procurou por um carrão dirigido por alguma mulher. Achou um civic prata. Avançou.
Deu duas pancadinhas no vidro, fez cara de mal e apontou sua “arma” para a vítima, que ,apavorada sem poder acelerar o veículo, abriu  a janela e entregou a bolsa. Fácil.  “Celular também”, ele gritou e ela ia entregar mas suas mãos tremiam tanto que o aparelho caiu para debaixo do banco.  Ele ferveu de ódio. Ia precisar roubar pelo menos mais dois carros para garantir que sairia de lá com o dinheiro necessário. Não podia perder tempo. Então berrou “anda logo, porra” e ela,  chorando e implorando para não ser morta, começou a tatear pelo carpete, por debaixo do tapete, dizendo “calma,menino,calma”.

O assalto provocou alvoroço e os carros em volta começaram um buzinasso ensurdecedor, como uma manada em pânico. O coração de Mateus disparou e ele berrou de novo, mas dessa vez ameaçou: “anda logo senão te mato, sua vadia”. Ela finalmente encontrou o celular e o entregou , ainda chorando. Alguns veículos para trás, um jovem bastante forte percebeu que o garoto não estava armado e desceu do carro. Sorrateiro,aproximou-se sem ser notado e deu o bote  passando-lhe o bíceps enorme em volta do pescoço, na tentativa de estrangulá-lo. Mateus esperneou e escapou, mas só para levar um soco que o atirou, grogue, ao chão. O celular roubado caiu e se espatifou , bem como a bolsa, que espalhou um bocado de tranqueiras pelo chão. Mateus esticou o braço para pegá-la, e, mesmo recebendo uma sequência de chutes, não se deteve até puxá-la para dentro da posição fetal em que se protegia das pancadas.  O asfalto lhe fritava o rosto, as canelas e os pés, já sem os chinelos. A mulher roubada desceu do carro e,enfurecida,  começou estocar-lhe na cabeça com o salto agulha. Outras pessoas se encorajaram e deixaram seus veículos. Um homem veio correndo com um pedaço de madeira que se partiu nas suas costas. Mesmo assim não largava a bolsa. Abriu o olho que dava para abrir e viu um homem gordo dando nó em uma corda. Aquilo lhe deu pânico. Tirou forças ninguém entendeu de onde e se levantou metendo as duas mãos no peito do gordo, que caiu para trás e foi atingido por uma moto que cruzava em alta velocidade o corredor entre os carros. As pessoas , em desespero, foram socorrê-lo e Mateus aproveitou para fugir , levando a bolsa pendurada no ombro.

Correu por uns dois quarteirões, com as pernas e o pulmão pegando fogo, até a rua dos craqueiros, onde ninguém ia se arriscar a procurá-lo. Chegando lá abriu desesperado a bolsa com se fosse um faminto avançando num prato de comida ,nem ligou pro sangue que não parava de descer do seu rosto. Só que sentiu o estômago gelar quando viu que ela estava praticamente vazia. Lá dentro só coisas inúteis, lenços umedecidos, chaves, uma fotografia, um batom. O que quer que tivesse de valor lá dentro tinha ficado pela avenida no meio da confusão. Desatou a chorar por que imaginou a si mesmo e a mãe levando tiros na cabeça e a irmãzinha sendo entregue a algum parente qualquer. Depois de um tempo, secou as lágrimas e resolveu tomar uma atitude drástica. Iria na biqueira entregar a bolsa, de repente tinha um bom valor, era bolsa de madame. Podia ser até importada. Mas,fosse como fosse, iria dizer que, se tivessem que matar alguém, que fosse ele. Que deixassem sua mãe em paz. Não ia dar mesmo pra fugir e levar a mãe e a irmã . De repente eles admiravam sua honestidade e lhe davam outra chance.

Chegou lá de cabeça erguida, carregando a bolsa dentro de um saco de lixo, para não chamar a atenção, e avistou o rapaz do rosto ossudo. Ele, e mais um garoto, os dois segurando fuzis, olharam surpresa para Mateus, que não teve sequer a chance de dizer uma palavra.
- Aeee, muleke !! Virou celebridade, ein. Passou no Datena, no Marcelo Rezende e naquele outro... como é que é mesmo o nome dele? Ô Palito, como chama aquele que tem cara de viado?
- Luis Bacci.
- É  esse aí mesmo, o Luis Bacci. Tu apareceu lá também. Filmaram com o celular você levando cacete.  Mó barato, eles tudo tão querendo arrancar teu couro, dizendo que tem de parar de passar a mão na cabeça dos de menor , que tem que quebrar a molecada no pau mesmo, aquelas coisas de sempre. Ae Palito, seu cuzão do caralho,  ta vendo como é que tem que ser? O moleque aí, ó, sozinho,desarmado, levando porrada e ainda conseguiu matar um e fugir. Vê se aprende,porra. Naquela fita lá cê se fudeu.  Ó,moleque,  é o seguinte, Sapo Boi mandou dizer que aquela dívida lá já era. Ta certo? E tem outra coisa, mandou entregar pra ti essa arma aqui,ó, que é pra você fazer seus corre, pra não ficar levando porrada na cara e também pra não ter mais que viver mais na esculhambação debaixo de sol no farol, levando esculacho de bacana filho da puta dentro de carrão. Daí você da uma condição melhor pra tua velha, que teu pai não pôde dar. Tá ligado.  De repente da até pra dar um trato no teu barraco. E tem outra coisa...não, não é assim que se fala. Ô Palito, como é que é aquele comercial lá que é cheio de vantagem, o cara compra um negócio e não para de ganhar as coisas? Aquele um que passa no intervalo daquele programa que tem uma mulher gorda que faz fofoca dos artistas, aquela Mama Buceta. Como é que é aquela propaganda ?
-“Calma, não acabou. Você ainda ganha inteiramente grátis essa raquete pra matar mosquitos da dengue”
- É isso aí memo ! Não acabou, tem mais coisa boa pra ti. Se liga, moleque, esse Palito é foda, ele tem uma memória do caralho. Outro dia ele cantou uma música do tempo que a gente era pivete, daqueles Mamões..
- Mamonas.
- Eu, sei, Palito, caralho, só falei errado. Tomá no cu, porra, mania do caralho de ficar corrigindo os outros ! Então moleque, ele cantou a música lá do robô viado...porra, do caralho, aquela época a gente era feliz e nem sabia. Porra, cê nem sabe a consideração que eu tenho pelo teu pai. Ele catava lá os papelão dele na rua, se fodia debaixo de chuva, ganhava uma miséria com aquilo mas sempre trazia um saquinho de bala pra molecada. Você era neném ,não lembra disso. Se liga só, meu olho até enche de lágrima. Se eu pegasse o arrombado que atropelou ele e sumiu eu dava um tiro no cu do filho duma puta.

Bom, então é o seguinte, Sapo Boi falou que se você quiser entrar no esquema com nóis é só colar aqui e trocar uma idéia com ele. Se quiser se virar sozinho, aí é contigo, ninguém vai te incomodar. Só não vem zoar aqui na área senão é caixão, e cê sabe disso. Tá certo? Ó, e outra coisa, teu irmão aqui ninguém quer ver nem pintado de ouro ! Entendeu? Negócio agora é entre nós e você, se ele apareceu aqui, acabou a amizade ! Tá certo ?
Eles se cumprimentaram e ele ficou sabendo que o rapaz de rosto ossudo se chamava Daniel.

Em casa, sozinho no quarto, Mateus ficou horas contemplando a arma que acabara de ganhar.

quinta-feira, 3 de março de 2016

HOJE EM DIA A GENTE SAI DE CASA E NÃO SABE SE VOLTA



-          Meu deus, filho, você vai sair e deixar o seu quarto DESSE jeito? Puxa vida, quantas vezes eu já te falei pra não largar tudo espalhado assim?Isso aqui ta parecendo um chiqueiro. Olha só esse guarda-roupa, ta tudo socado aqui dentro. Agora a pouco abri e caiu uma luva de boxe na minha cabeça !
-          Essa luva aí você pode jogar fora  ,mãe, porque o Paulinho não volta mais pro Thai não, tava apanhando muito. Pediu pra sair ! Hahahahaha. Só tem tamanho, é fortão mas não é de nada ! hahahha
-          Cala boca, trouxa ! Ta querendo levar umas porradas?
-          Vai chamar quem pra me bater? Seu namorado? HHAHAHAH Por que você mesmo só sabe apanhar Hahahahaha
-          Ô, vamos parar vocês dois! Uma hora dessas e eu tendo que arrumar o quarto de dois marmanjos...Ninguém merece!
-          Isso é que é vida boa, senhor Paulo...Com os mesmos 25 anos eu trabalhava em dois empregos para pagar essa casa aqui. E a Dona Clarice, grávida de você, me dando trabalho todo dia....
-          Eu dando trabalho? Como assim dando trabalho?
-          Mãezona, pode deixar que amanhã eu arrumo tudo, ta bom?
-          Ah, ta ! Duvido. Se eu não arrumar agora vai é me sobrar mais serviço pra amanhã... Mas vem cá, Osni, que história é essa de que eu te dava trabalho?
-          Prometo, mãezona . E, pai, vê se não fica me ligando de madrugada por que hoje eu não vou chegar cedo não, a balada vai ser boa.
-          Vê se você não vai naqueles funks que o pessoal faz na rua porque nesses lugares só tem bandido, ein !
-          É, não se mete com essa gente não, pelo amor de deus ! E come alguma coisa antes de sair, Paulinho, por favor !
-          Eu como na rua mesmo, mãe, não se preocupa ! Pai, fica tranqüilo que eu não vou pro fluxo não.
-          Pra onde?
-          Fluxo é onde rola o funk pai, mas o Paulinho é cagão , ele não vai lá não hahahaha
-          Vai se foder, moleque, a hora que você comer alguém você vem falar comigo seu cuzão !
-          Ôoo ! Olha a boca ! Mais respeito nessa casa ! E, Mateusinho, dá um tempo, para de pirraçar seu irmão. Que bobeira, isso ! Criancice ! Paulinho,pelo menos vai mastigando alguma coisa. Toma, pega esse pedaço de pizza. Eu sei que vocês ficam bebendo a noite toda, daí se esquecem de comer e quando vai ver passa mal.
-          Vê se não vai beber muito, ein rapaz ! Toma cuidado. Não vai inventar de correr demais com o carro, ein
-          Ta bom, gente , todo sábado vocês me falam a mesma coisa e eu sempre chego inteiro em casa.
-          Vai com deus, filho- disseram os pais, ao mesmo tempo.

Paulo encontrou os amigos num posto de gasolina onde o pessoal encosta os carros para ouvir funk e fazer o esquenta bebendo batida e bomberinho, antes de irem para uma balada sertaneja “só com mina top” , conforme descrevera o amigo Bruno . guardando assim uma grana pra impressionar depois com o que desse para comprar de whiskie e Red Bull.
Ficaram uma hora e nesse tempo todo Paulo não conseguia tirar os olhos da menina de aparência frágil e rosto delicado que conversava com algumas amigas, ali perto do grupo dele. Bruno avisou,irritado, que não era pra ele ficar enrolando e nem “levar a mina pra balada”, por que lá a gente vai caçar”.
Sem querer perder tempo então ele se aproximou, disse oi para a garota, beijou-a no rosto e disse, “prazer, eu sou o  Ricardo e te achei muito gata”. Ela agradeceu com um sorriso sem graça, um tanto forçado e,sem dizer seu nome,  virou para conversar novamente com as suas amigas.
Contrariado com o pouco caso e percebendo o olhar gozador dos amigos, Paulo pegou a garota pelo braço,colou o rosto ao dela e começou a cochichar mais alguns elogios. Ela se desvencilhou  e,irritada, disse que estava acompanhada. Ele riu, duvidou, achou que era charminho, grudou de novo e disse, sussurrando em seu ouvido, que não tinha visto ninguém com ela e em seguida deu-lhe uma mordida na orelha, enfiou a língua no ouvido e começou a passar a mão numa das coxas, mesmo com ela dizendo para ele parar e tentando se afastar a todo custo. Ricardo só parou mesmo quando ouviu um “tira a mão da minha mina, cuzão do caralho”.
Mal olhou para trás e já levou um sopapo que o jogou no chão. A mãozada quem deu foi uma garota quase da sua altura, gorda,de ombros largos e cabelo corte mlitar.
Doeu. Cortou o canto da boca e escorreu um fiozinho de sangue. Ele levantou furioso, ofendido, e respondeu com um soco que pegou logo abaixo do olho direito dela e que ,pela força, a empurrou para trás, cambaleante. Paulo se frustrou, queria ter acertado o nariz, quebrado o nariz e foi nessa intenção que avançou, entrelaçou os dedos das suas  duas mãos por detrás da nuca da garota e, num golpe de muay thai, puxou sua cabeça para baixo de modo que fosse de encontro a uma violenta joelhada. Ela tentou se proteger com as mãos mas ele desferiu mais dois golpes sendo que o último entrou livre,em cheio. A calça dele ficou suja com o sangue da garota, que desabou no chão. No meio daquele sangue todo ele viu que tinha lhe cortado a boca, o supercílio e a testa, mas o nariz continuava intacto. Com ódio, desferiu um chute poderoso, como se estivesse batendo um pênalti. Este sim destroçou a cartilagem do nariz, que ficou torto, amassado,deformado. Não parecia mais um nariz. Ela respirou sangue, engasgou e sufocou. Ele continuou chutando, na cabeça, na nuca, nos seios. Só parou quando os amigos, berrando “já chega, parou,parou” ,o puxaram pelo braço.
Fugiram dali em seguida.
No dia seguinte Ricardo dormiu até tarde, afinal chegara em casa só às sete da manhã.
Enquanto preparava o almoço, Dona Clarice ouvia um apresentador  falara indignado sobre a morte de uma garota num posto de gasolina. Um pouco preocupada com o filho, um pouco desiludida com o mundo, suspirou para si mesma:

- Que tristeza. Hoje em dia a gente sai de casa e não sabe se volta.