- Ae, truta,
como é que tu tem coragem de chegar na minha cara e falar que não tem a grana, seu
arrombado do caralho ? Não é problema meu que o nóia do teu irmão é um pau no
cu e largou você e tua mãe aí com conta
pra pagar. Tá certo? Você tem sorte que eu sou sangue bom e eu tenho
consideração pelo teu finado pai ,por que o certo era meter uma bala na sua
cara AGORA. Ta ligado? Ó, vou te falar, se
isso aqui cai nos ouvido do Sapo Boi, truta, já era, ele manda nóis partir pro
arrebento e arregaçar com a tua família TODA .Ta ligado? Então SE VIRA, vai
robá, vai dar o cu, não sei, mas me aparece aqui com a grana amanhã ! Ta certo
? AMANHÃ !
Mateus saiu de
lá tonto. Os cambitos pretinhos tremiam que só faltavam se bater. Não sabe como
não se mijou. Em casa, não quis ver a novela com a mãe e jantou em silêncio,
apesar da insistência dela em fazê-lo conversar. Mentiu que na manhã seguinte não
iria para a escola porque os professores estariam em greve. Era impossível
esquecer aquele sujeito de rosto comprido e ossudo, com olhos esbugalhados,
esfregando o cano gelado da arma na sua testa.
Sentiu um
desespero que nunca tinha sentido. Onde iria conseguir aquele dinheiro todo? Passou
a noite e a manhã seguinte pensando numa solução. Com o que ganhava vendendo
amendoim no semáforo ia levar uns dois meses pra pagar a dívida, isso ainda se
não tivesse que ajudar em casa. Mas tinha. As faxinas da mãe rendiam um bom
dinheiro, mas que não dava pra aluguel, despesa e as necessidades da neném. Pra
ele mesmo sobrava muito pouco. E ia pedir emprestado para quem se só tinha
amigo e parente pobre igual a ele?
Pensou então
numa saída. Lembrou que havia um jeito fácil de roubar, a molecada fazia isso
direto e eles diziam que era bem pouco arriscado, bastava chegar na avenida na
hora do engarrafamento, enfiar o braço dentro de algum carro e pegar o que desse,
relógio, celular,bolsa. Nem precisaria ir armado, era só colocar a mão por
dentro da blusa para fazer o dedo indicador parecer o cano de um revólver . “Escolhe carro de mulher, mulher se caga a
toa, entrega fácil.”, aconselhou um amigo por whatsapp.
Fazer o que, era
o único jeito. E lá se foi ele. Ficou sentado de cócoras debaixo do viaduto,atrás
de uma coluna para não chamar a atenção, suando com o calor e assistindo a hora
do rush se formar. Procurou por um carrão dirigido por alguma mulher. Achou um
civic prata. Avançou.
Deu duas
pancadinhas no vidro, fez cara de mal e apontou sua “arma” para a vítima, que
,apavorada sem poder acelerar o veículo, abriu a janela e entregou a bolsa. Fácil. “Celular também”, ele gritou e ela ia entregar
mas suas mãos tremiam tanto que o aparelho caiu para debaixo do banco. Ele ferveu de ódio. Ia precisar roubar pelo
menos mais dois carros para garantir que sairia de lá com o dinheiro
necessário. Não podia perder tempo. Então berrou “anda logo, porra” e ela, chorando e implorando para não ser morta, começou
a tatear pelo carpete, por debaixo do tapete, dizendo “calma,menino,calma”.
O assalto provocou
alvoroço e os carros em volta começaram um buzinasso ensurdecedor, como uma
manada em pânico. O coração de Mateus disparou e ele berrou de novo, mas dessa
vez ameaçou: “anda logo senão te mato, sua vadia”. Ela finalmente encontrou o
celular e o entregou , ainda chorando. Alguns veículos para trás, um jovem
bastante forte percebeu que o garoto não estava armado e desceu do carro.
Sorrateiro,aproximou-se sem ser notado e deu o bote passando-lhe o bíceps enorme em volta do
pescoço, na tentativa de estrangulá-lo. Mateus esperneou e escapou, mas só para
levar um soco que o atirou, grogue, ao chão. O celular roubado caiu e se
espatifou , bem como a bolsa, que espalhou um bocado de tranqueiras pelo chão. Mateus
esticou o braço para pegá-la, e, mesmo recebendo uma sequência de chutes, não
se deteve até puxá-la para dentro da posição fetal em que se protegia das
pancadas. O asfalto lhe fritava o rosto,
as canelas e os pés, já sem os chinelos. A mulher roubada desceu do carro e,enfurecida,
começou estocar-lhe na cabeça com o
salto agulha. Outras pessoas se encorajaram e deixaram seus veículos. Um homem veio
correndo com um pedaço de madeira que se partiu nas suas costas. Mesmo assim
não largava a bolsa. Abriu o olho que dava para abrir e viu um homem gordo dando
nó em uma corda. Aquilo lhe deu pânico. Tirou forças ninguém entendeu de onde e
se levantou metendo as duas mãos no peito do gordo, que caiu para trás e foi
atingido por uma moto que cruzava em alta velocidade o corredor entre os
carros. As pessoas , em desespero, foram socorrê-lo e Mateus aproveitou para
fugir , levando a bolsa pendurada no ombro.
Correu por uns
dois quarteirões, com as pernas e o pulmão pegando fogo, até a rua dos
craqueiros, onde ninguém ia se arriscar a procurá-lo. Chegando lá abriu desesperado
a bolsa com se fosse um faminto avançando num prato de comida ,nem ligou pro
sangue que não parava de descer do seu rosto. Só que sentiu o estômago gelar
quando viu que ela estava praticamente vazia. Lá dentro só coisas inúteis,
lenços umedecidos, chaves, uma fotografia, um batom. O que quer que tivesse de
valor lá dentro tinha ficado pela avenida no meio da confusão. Desatou a chorar
por que imaginou a si mesmo e a mãe levando tiros na cabeça e a irmãzinha sendo
entregue a algum parente qualquer. Depois de um tempo, secou as lágrimas e
resolveu tomar uma atitude drástica. Iria na biqueira entregar a bolsa, de
repente tinha um bom valor, era bolsa de madame. Podia ser até importada.
Mas,fosse como fosse, iria dizer que, se tivessem que matar alguém, que fosse
ele. Que deixassem sua mãe em paz. Não ia dar mesmo pra fugir e levar a mãe e a
irmã . De repente eles admiravam sua honestidade e lhe davam outra chance.
Chegou lá de
cabeça erguida, carregando a bolsa dentro de um saco de lixo, para não chamar a
atenção, e avistou o rapaz do rosto ossudo. Ele, e mais um garoto, os dois
segurando fuzis, olharam surpresa para Mateus, que não teve sequer a chance de
dizer uma palavra.
- Aeee, muleke
!! Virou celebridade, ein. Passou no Datena, no Marcelo Rezende e naquele outro...
como é que é mesmo o nome dele? Ô Palito, como chama aquele que tem cara de
viado?
- Luis Bacci.
- É esse aí mesmo, o Luis Bacci. Tu apareceu lá
também. Filmaram com o celular você levando cacete. Mó barato, eles tudo tão querendo arrancar teu
couro, dizendo que tem de parar de passar a mão na cabeça dos de menor , que
tem que quebrar a molecada no pau mesmo, aquelas coisas de sempre. Ae Palito,
seu cuzão do caralho, ta vendo como é
que tem que ser? O moleque aí, ó, sozinho,desarmado, levando porrada e ainda
conseguiu matar um e fugir. Vê se aprende,porra. Naquela fita lá cê se fudeu. Ó,moleque,
é o seguinte, Sapo Boi mandou dizer que aquela dívida lá já era. Ta
certo? E tem outra coisa, mandou entregar pra ti essa arma aqui,ó, que é pra
você fazer seus corre, pra não ficar levando porrada na cara e também pra não
ter mais que viver mais na esculhambação debaixo de sol no farol, levando
esculacho de bacana filho da puta dentro de carrão. Daí você da uma condição
melhor pra tua velha, que teu pai não pôde dar. Tá ligado. De repente da até pra dar um trato no teu
barraco. E tem outra coisa...não, não é assim que se fala. Ô Palito, como é que
é aquele comercial lá que é cheio de vantagem, o cara compra um negócio e não
para de ganhar as coisas? Aquele um que passa no intervalo daquele programa que
tem uma mulher gorda que faz fofoca dos artistas, aquela Mama Buceta. Como é
que é aquela propaganda ?
-“Calma, não
acabou. Você ainda ganha inteiramente grátis essa raquete pra matar mosquitos
da dengue”
- É isso aí memo
! Não acabou, tem mais coisa boa pra ti. Se liga, moleque, esse Palito é foda,
ele tem uma memória do caralho. Outro dia ele cantou uma música do tempo que a
gente era pivete, daqueles Mamões..
- Mamonas.
- Eu, sei,
Palito, caralho, só falei errado. Tomá no cu, porra, mania do caralho de ficar
corrigindo os outros ! Então moleque, ele cantou a música lá do robô
viado...porra, do caralho, aquela época a gente era feliz e nem sabia. Porra,
cê nem sabe a consideração que eu tenho pelo teu pai. Ele catava lá os papelão
dele na rua, se fodia debaixo de chuva, ganhava uma miséria com aquilo mas
sempre trazia um saquinho de bala pra molecada. Você era neném ,não lembra
disso. Se liga só, meu olho até enche de lágrima. Se eu pegasse o arrombado que
atropelou ele e sumiu eu dava um tiro no cu do filho duma puta.
Bom, então é o
seguinte, Sapo Boi falou que se você quiser entrar no esquema com nóis é só
colar aqui e trocar uma idéia com ele. Se quiser se virar sozinho, aí é
contigo, ninguém vai te incomodar. Só não vem zoar aqui na área senão é caixão,
e cê sabe disso. Tá certo? Ó, e outra coisa, teu irmão aqui ninguém quer ver
nem pintado de ouro ! Entendeu? Negócio agora é entre nós e você, se ele
apareceu aqui, acabou a amizade ! Tá certo ?
Eles se
cumprimentaram e ele ficou sabendo que o rapaz de rosto ossudo se chamava
Daniel.
Em casa, sozinho
no quarto, Mateus ficou horas contemplando a arma que acabara de ganhar.