Era um apartamento em um prédio antigo
na Santa Cecília. “Herança do meu avô”, ela explicou, ao pegar com um movimento
rápido um gato que parecia uma bola de pelo, antes que ele escapasse pela porta.
- É só tocar a campainha que ele
corre pra tentar fugir, esse pilantrinha”, me disse, completando- entra, por
favor.
Era uma ruiva magra, bonita, com lá
seus trinta anos e nada de maquiagem .Cabelo comprido e levemente cacheado, blusinha
branca sem manga, os braços branquelos de fora e um saião estampado que ia até
o pé. Andava descalça, as unhas dos pés estavam bem feitas, esmalte vermelho. O
ruivo do cabelo parecia falso. Talvez, na verdade, fosse loira. Ruiva
normalmente tem a cara enferrujada, ela não tinha. Não sei por que alguém não
gostaria de ser loira.
Se afsatou para eu entrar, fechou a porta e
soltou o gato , que deu uma corridinha pra longe de mim e depois parou pra se
lamber.
Pediu ,com muita educação, pra eu
tirar os sapatos, depois me disse para sentar em um sofá vermelho com pés de
madeira. Me trouxe suco gelado e umas bolachas daquelas com um monte de grãos,
tipo comida de passarinho, que ela colocou numa tigela de bambu . A sala era toda
cheia de estilo, com móveis antigos e enfeites com cara de terem sido comprados
em alguma loja bacana, quadros com pinturas que não dava pra entender exatamente
o que eram e um monte de livros e discos
antigos. Pela casa, imaginei que ela fosse professora de faculdade. Na parede
de frente para o sofá, um quadro vermelho daquele cara cubano de boina. A moça provavelmente era comunista, mas aparentava ser boa pessoa.
Em seguida ela acendeu um incenso
e o colocou sobre uma cômoda de madeira toda trabalhada que ficava ao lado de
um Buda de pedra de uns cinquenta centímetros e me disse com voz suave igual
professora de criança:
- Querido, fecha os olhos.
Só que eu achei aquilo estranho e
não obedeci de imediato, o que a irritou um pouco.
- Tá com medo de quê, amor? –
Fechei os olhos e ela prosseguiu, voltando com a voz suave de professora de
criança - Agora respira fundo. Iiiisso! Relaxa a musculatura, solta os ombros,
sacode os braços – Obedeci e ela repetiu- Iiiiisso. Aqui não é lugar de tensão, só de
tesão, disse, dando uma risadinha. Agora abre os olhos devagar, beeem devagar.
Iiiisso. Agora tira esse paletó e essa gravata. Pode ficar só de camisa. Primeiro
que eu acho isso brega demais e, na boa, roupa preta aqui em casa não. Só pra
te explicar, aqui em casa a gente não anda de sapatos pra não trazer as
energias negativas da rua, entende . Olha, eu te contratei como segurança mas
eu quero que você entenda o que a gente faz aqui. Sabe eu detesto entrar numa
exposição e ver os seguranças parecendo umas estátuas alheios a tudo o que está
em volta deles. Sabe, eu busco sempre um contato mais humano com os empregados.
Rashtag por um mundo mais humano. Você me entende, né?
Respondi que sim, mas era
mentira. Ela sorriu sem mostrar os
dentes e cerrando os olhos. Sei lá se aquilo era sincero. Devia ser, ela
parecia boa gente. Me arrumou uma calça branca de linho que alguém tinha
esquecido lá e continuou explicando um monte de maluquices enquanto espalhava
pela sala travessas com petiscos e me orientava arrastar o sofá e a cômoda (com
cuidado para não derrubar o incenso ) e assim abrir espaço na sala. Arrastei
também o Buda, pesadíssimo, com o maior cuidado do mundo. Precisei colocar um
lençol debaixo dele para não riscar o piso de taco. Ela não parava de falar.
- Você vai trabalhar, mas também
vai ser parte pulsante, vai estar conectado. Isso aqui é um sarau, mas não um sarau convencional, só com
arte e falação. Nós procuramos aprofundar também o lado espiritual, buscar uma
vivência mais elevada. Não é só a poesia, não é só a meditação, é tudo isso
junto. Aqui nós buscamos uma vida plena, uma vida completa. A carne é o caminho
para o espírito e vice-versa. Você entende o que eu estou te falando, né?
Respondi que sim, mas de novo era
mentira. Ela deu aquele sorriso outra vez.
- Você só vai precisar fazer
alguma coisa caso alguém dê ruim e passe do ponto. Aí você faz uns primeiros
socorros e tal. Nos quartos você não precisa entrar, ok. Imaginei que ali iria
rolar sacanagem. Só por deus, eu falei pra mim mesmo. Talvez fosse uma daquelas
festas de suruba, se bem que ela não tinha cara de quem faz suruba. Ela
continuou falando.
- Ah, e se você perceber que
alguém vai se jogar da janela não deixa, por favor. Da última vez o Guto
transcendeu , ignorou todas as barreiras e quase que me acontece uma tragédia.
Lógico que teria uma poesia no ato, mas...melhor não, né? Melhor passar a noite
sem um suicídio. – e riu, dessa vez com gosto -
Ah e se algum vizinho mau humorado bater na porta você conversa com ele,
tá? Tem um pessoal reaça aqui que adora bancar o estraga-prazeres. E riu
gostoso de novo, me dando um tapinha no peito.
Ela me ofereceu café e eu fiquei
lá de bobeira por uns vinte minutos . Fiz alongamento, recomendação dela, e
assisti TV. Quando tocou a campainha ela desligou o aparelho e pediu para que
eu atendesse a porta, enquanto corria para pegar o gato no colo. Entraram de
uma vez umas oito ou nove pessoas barulhentas. À frente um rapaz tão branco e
magro que parecia uma lagartixa, com bigode ralo e cabelo muito preto grudado
na cabeça por causa do gel. Por último entrou um daqueles homens enormes que se
fantasiam de mulher, de vestido ,todo maquiado e com cara de capeta. Berrava
elogios ao apartamento. Tudo pra ele era lindo, até um cinzeiro de vidro. Fechei
a porta e a patroa soltou o gato, que correu assustado pra cozinha. Ela deu um
abraço demorado em cada um, inclusive no fantasiado , que disse, berrando, que
ela era linda ,maravilhosa e poderosa. Por
último abraçou o branquelo de bigodinho.
- Kaíiiique, amor da minha vida !
A única pessoa que entra toda de preto na minha casa.
Um negrão mais preto do que eu
olhou na minha direção e falou para a patroa “namorado novo ou vai ter go-go
boy ?. Ela gargalhou e fez com a cabeça que não.”nem uma coisa nem outra”, ela
respondeu e ele, rindo, fez “hmm”. Em uma hora o apartamento parecia pequeno de
lotado que estava, tinha provavelmente umas vinte e cinco ou trinta pessoas lá
dentro, bebendo e conversando, um bocado deles fumando maconha. Me ofereceram
cinco vezes. Eu recusei e não interferi, já que tinha sido avisado pra deixar o
pessoal da marola fumar em paz . Um rapaz
me perguntou onde havia cerveja, eu corri e lhe trouxe uma Stella e ele
agradeceu dizendo “obrigado, querido, você é um doce”.
Um fulano sem camisa, de barba
enorme e coque, começou a bater palmas e chamar as pessoas.
“Nós vamos meditar. Se você
quiser, pode participar, mas não esquece o que eu falei sobre a janela” , a
patroa me disse. Achei melhor não participar do quer que fosse aquilo e ficar de
olho na janela, e na porta também, caso alguém tocasse a campainha.
Rolou uma música que devia ser
indiana, o povo desandou a pular de olhos fechados, cada um onde estava, uns na
cozinha, outros na sala ou até na lavanderia, se sacudiam feito uns doidos. ”A
mente se liberta e a alma se expande enquanto o corpo se move”, o barbudo
disse, e foi a única coisa que ele falou. Um garoto com uma cabeleira bombril
deu uma estrela em direção à janela . Eu corri, saltei e o agarrei,como se
fosse um goleiro. Em resposta, ele me abraçou,ou melhor, grudou em mim como um
carrapato. Eu não sabia se me desvencilhava ou se esperava ele me soltar. Por
fim ele me soltou e deu outra estrela, esta em direção à cozinha, o que
espantou o gato, que devia estar escondido em algum canto lá dentro.
A tal meditação acabou, eles
aplaudiram sei lá o que e a patroa gritou a uma menina pequena, magra e careca,
que podia começar a rolar o som. Ela colocou os fones de ouvido e soltou uma
música eletrônica. O pessoal começou a dançar.
Uma moça bonita ,muito branca ,
toda tatuada, com pernas enormes estufando a minissaia,
mas com cara de chapad,a se
aproximou de mim segurando uma taça de vinho e ,sem rodeios , me perguntou qual
a minha “especialização”.
- Segurança, respondi.
- A psicologia é um trabalho
lindo, ela disse, e desatou a falar- Restabelecer a segurança é TUDO, a gente
precisa enfrentar os fantasmas internos, os nossos demônios, mas sozinho não
rola, né. A gente precisa de vocês. Eu mesmo faço análise faz doze anos. A
gente sempre tem alguma coisa para aprender a respeito de si mesmo. Esse
mergulho nas nossas profundezas, na nossa sombra...Ela parou, gargalhou e
continuou- olha eu, a louca Junguiana,
falando em sombra.Daqui a pouco to só nos arquétipos. Se minha analista, que é
Lacan de carteirinha, me ouve falar assim, ela me mata – e gargalhou de novo,
tomando toda a taça de uma só golada. O gato continuava agoniado para lá e para
cá, parecia procurar uma brecha para escapar ou algum lugar pra ficar onde não
houvesse gente se sacudindo.
Com uma mão ela me abraçou pela
cintura , pegou na minha bunda, arregalou os olhos e disse, uau, maior que a
minha” e logo em seguida perguntou se eu tinha pó. Eu disse que não e ela falou
que ia pegar com alguém de nome esquisito e já voltava. Eu pensei em perguntar
para a patroa se eu devia reprimir o comportamento da moça e coibir o uso do
entorpecente mas bem na hora ela desligou a música, bateu palmas e pediu
atenção de todos. Achei melhor eu ficar onde estava.
- Vai começar a performance da
Kaíque . Por favor, todo mundo para a sala, ela disse.
O pessoal obedeceu e se amontoou para assistir por cinco minutos Kaíque ficar
sem mover um dedo, feito uma estátua, até, de repente, dar um berro assustador,
desabar ruidosamente no chão e começar a estrebuchar e grunhir. Identifiquei um
ataque epilético e pensei em pular sobre Kaíque e puxar sua língua para impedir
que ela fosse mastigada, evitando, assim, um sufocamento com o próprio sangue.
Só que no mesmo instante tocou a campainha. Provavelmente era algum vizinho que
tinha se assustado com o grito. Olhei
para a patroa em busca de um sinal de como eu devia proceder,se salvava Kaíque
ou atendia a porta, mas ela fez com a cabeça que não. Entendi que, por algum
motivo, eu devia ficar onde estava. A campainha insistia.
O problema foi que Kaíque começou
a rolar pelo chão dando uns chutes no vazio, como se levasse choques elétricos.
Isso não seria nada demais para aquele lugar de gente doida, só que um dos chutes atingiu o gato bem na cabeça
quando ele corria pela sala em direção à porta. O golpe foi tão forte que o
animal nem gritou, ficou tendo espasmos por alguns segundos morreu.
A patroa deu um berro e correu
para pegar o bichinho nos braços. Olhava inconformada para o animal e para Kaíque,
que continuava de olhos fechados , rolando e chutando. Só parou quando levou
uma bicuda certeira no nariz. Kaíque levantou com os olhos estalados, sem
acreditar no sangue que corria em seu rosto. A campainha , que já estava
histérica, ganhou acompanhamento de murros na porta.
- Fiiiilha da puta ! Sua
cheiradora do caralho, você matou meu gato ! Berrou a patroa.
Kaíque se levantou para pedir
desculpas, mas levou outro chute, desta vez no peto, e caiu para trás, batendo
as costas no Buda. Aquilo deve ter doído. Eu me joguei na frente de Kaíque, que a essa
altura eu já não sabia se era homem ou mulher, para impedir outra agressão, mas
a patroa disparou
- Seu merda! Que porra você veio
fazer aqui? Você não consegue proteger nem um gato e quer ser segurança? Seu
pau no cu. Pega aquela bosta de paletó horroroso e desaparece daqui. E avisa
aquela porra de empresa que eles não vão receber nem um centavo.
Uns desviavam o olhar, outros,
inclusive a morena que achou que eu fosse psicólogo, me olharam com desprezo.
Calcei as meias e os sapatos, peguei o paletó e a gravata, que nem meus eram,
joguei no ombro e fui embora. Quando abri a porta, um velho baixinho e
barrigudo, vestindo pijamas, berrou um monte de desaforos para mim. Passe
direto por ele. Ouvi, da escada, um “vai tomar no cu, seu Adolfo”, dito pela
dona do apartamento. Só depois vi que eu ainda estava com a calça branca. Nem
tive cara de voltar lá para devolver e pegar a da empresa.
Não é fácil perder um bichinho
que você ama, eu sei. Mas se ela não pagar a empresa e ainda me esculachar pro
Robertão, eu to fodido. Não da pra arriscar perder emprego nessa época de crise
não. As contas não esperam ninguém arrumar trabalho. Eu devia ter tirado aquele
gato de lá, de algum jeito. Ela não parecia má pessoa.
