Geraldinho
entrou no bar com uma pisadona firme de pé direito,como se esmagasse uma
bituca. Rangeu os dentes, espremeu o rosto negro. Sabia que era tudo ou nada,
ou encarava ou era veado. Ele não ia dar para trás porque não tinha dessa de
gore-goré, de fugir da raia, de inventar lorota pra se acovardar. Era um
baixinho braçudo e capoeira, não tinha medo de cara-feia nem de briga de murro.
Pra se bater com ele tinha de ser na faca e olhe lá. E era bebedor dos brabos,
não havia de ser a pinga a lhe derrubar. O problema mesmo era a pimenta. Pra
que foi inventar isso de pimenta?
Só que ele não podia nem lembrar
da cara do Demar ,com aquela vozinha de quenga dizendo que ele não era homem
pra tomar um litro de pinga, um copo depois do outro,ali, bem na frente de todo
mundo. Quem era o Demar? Um bostinha, um Zé-ninguém,um Zé-Bosta. Não agüentava
um tapa. O sangue esquentou tanto que ele disse que não só tomava tudo como
derrubava também o potinho da pimenta que o pessoal usava pra dar um grau no
churrasquinho do Beto Pescoço. Se imaginou botando tudo pra dentro e dizendo,
bem na cara do covarde, “você não passa de um Zé-Bosta, Demar, isso que você
é.Um Zé-Bosta”.
Tudo bem
engrossar com o babaca, mas não devia ter falado em pimenta. Olhou pra um lado
e pro outro procurando pelo desafeto,mas não o encontrou.
-
Tá vendo isso, seu Geraldo, assim é que é bom. Quando o
pessoal começa a cantar é que começa a gastar, disse o Beto, que tomava conta
do boteco naquele dia.O Boca-murcha tinha saído pra levar a mulher ao médico.
Só aí Geraldinho
notou que o pessoal comia e bebia enquanto cantarolava Retalhos de Cetim,do
Benito, bem a música que ele gostava de cantar quando já estava meio alto de
bebida.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.
Fingiu que não deu bola pro Benito e pediu pela 51, “uma dose não, a
garrafa”. Zé Pescoço tentou demove-lo da idéia. “Pra que isso, seu Geraldo,não
da bola pro Demar não, deixa isso pra lá”. Não adiantou nada porque ele se
enfezou e tomou os dois potinhos ,o de pimenta e o de farinha, misturou tudo e
fez uma maçaroca rosa. Meteu uma colherada cheia na boca e disse, cuspindo uns
grumos no balcão, pro Beto Pescoço dar logo a pinga senão aquilo não ia descer.
Beto cedeu e ele começou a beber. Em pouco tempo tinha os olhos vermelho-sague.
Não soube como chegou em casa, só se viu na cama, vomitando, sem tempo nem
força de chegar no banheiro. A cama dava piruetas.Veio diarréia e febre alta,o
estômago em brasa. Dor nos ossos,nos músculos,por dentro,por fora. Até que
passou. Três dias trancado em casa sofrendo e ele finalmente estava pronto pra
outra e,mais do que isso, pra humilhar de vez o Demar.
“Um Zé-Bosta daquele acha que pode me tirar?É um coitado. Não tem porra
nenhuma ,só é metido a rico. Não agüenta um tapa. Deixa ele ficar arrastando as
asas pra Do Carmo,deixa. Por acaso ele pensa que ela vai querer alguma coisa
com um bostinha que nem ele?”.