terça-feira, 26 de novembro de 2013

NOITE

Cueca boxer Calvin Klein vermelha (assinatura gravada no elástico), jeans Cavalera (preto envelhecido), cinto de couro preto (fivela redonda) detalhes costurados em vermelho.
Meia branca,bota coturno West Coast preto(cadarços amarelos).
Camiseta baby-look preta, gola V (Tapout).
Gel. Listerine.

Soco inglês.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

OFENSA

O cara faz filme pornô,ganha dinheiro adoidado comendo aquela mulherada toda, de todo tipo e de toda cor, o cara come todas elas ,ganha uma grana e não ta satisfeito. Ele quer o que? Ele quer aquilo que ele não tem. Porque a humanidade é assim,o ser humano é assim. Passou um cara desses aí na televisão, o repórter perguntou como é que ele fazia pra ficar com a manjuba em pé o tempo todo, não perguntou desse jeito, usou outras palavras, mas o sentido era esse, ele perguntou se o cara tomava remédio, se ele tomava injeção no binguelo, qual o segredo dele. O cara disse que não toma nada, só que tem uma coisa, se a piroca ameaça não levantar ele pensa logo na cunhada. É aí que eu to querendo chegar. O ser humano ta sempre insatisfeito. E era um cara forte, todo musculoso, se sai na noitada por aí arruma mulher fácil. Mas isso ele nem quer, o cara quer é a periquita da cunhada, só porque não pode ter. Entendeu? Agora se você reparar bem todos esses caras que fazem filme de metelança são marombados. Por que? Porque o cara barrigudão, que não faz nada na vida, que não faz um exercício, não anda numa esteira, ele não agüenta nada. É perigoso até o cara pedir arrêgo,ou pior, pode até ter um treco no coração, cair duro e a mulher ter que sair correndo pelada chamar por uma ambulância. De repente se o cara cai por cima dela ta arriscado ela não conseguir levantar e morrer também. O sujeito com a barriga grande também tem outra desvantagem, ele não enxerga o que ta acontecendo lá embaixo e, como ele não vê nada, aquilo perde a graça pra ele e a pica cai rapidinho. Você tem colocar uma coisa na sua cabeça, o cara da barriga pendurada, o cara que é considerado gordo,obeso, ele tem uma doença. Não é um cara normal. É igualzinho o cara que sente frio demais.o organismo tem um defeito,o sangue não circula, ele para num determinado lugar e não prossegue, aí não aquece o corpo do cara. Isso é uma doença. 

 - Nãonãonãonão! Nãonãonãonão!

 - Não to falando que você é doente, Pezinho, to falando que muitas das vezes essa coisa de sentir frio demais é uma doença. Você tem que ver isso aí,porque de repente pode até ser uma coisa grave. 

 - Você não sente frio? Então tira a roupa e sai pelado na rua pra ver se você agüenta. Não é machão?

- Tudo bem, hoje ta frio pra danar, mas tem dia que não justifica você ta com essa jaqueta aí, é isso que eu quero que você entenda.

 - Você falou uma coisa errada aí, Pelé.Quer dizer que só porque o cara é gordo tem que ser brocha? 

- Meu deus do céu, mas vocês são dois teimosos mesmo ! Será possível que eu to falando japonês, Quinzão ? 

- Você ta falando que eu tenho a pica mole! Você ta me ofendendo !E se você quer saber, muitos desses caras bombadões aí que você fala já tão com o pau caído de tanto fazer musculação !

 - Não falei nada disso ! To falando de físico, de organismo. Agora um cara que nem você que ta aposentado faz quinze anos, não faz nada, só joga dominó, não agüenta bater um prego numa banana madura, vem querer me dizer que tem resistência? To errado, Pezinho? 

- Hahahaha!!Nisso aí você ta certo! Hahahahahah ! 

- Nenhum de vocês agüenta um tapa meu, se vocês querem saber. Dá uma olhada lá fora, olha só aquilo.Se é filho meu eu meto no pau . É uma surra por dia até virar homem. Imagina a vergonha do pai duma criatura dessas, o cara ta la no bar tomando uma cachaça e tem que falar pro outros, ´olha aí o meu filhão`. Uma bicha! Já pensou nisso?

 - Quinzão, bota uma coisa na sua cabeça. O pai tem que aceitar o filho do jeito que ele é. Ninguém quer ter um filho com defeito, um filho feio,mas se tiver tem que aceitar. Não pode rejeitar.

 - Eu concordo é com o Quinzão .

 - Pezinho, sua mulher faz você beber água de babosa pra parar de cair seu cabelo. Pra mim isso é que é coisa de veado.

- Hahahahaha. Porra, Pezinho, água de babosa? Hahahahha. Que veadagem é essa? Hahahaha ! 

- Olha, brincadeira é uma coisa, aí você já colocou minha mulher no meio e eu não gostei. To sendo sincero com você,eu não gostei ! 

- Rapaz, esquentar a cabeça por causa de mulher ! Eu sou da seguinte opinião, casamento só dura porque vai criando aquela amizade entre os dois, mas o cara pra aturar uma mulher uma vida inteira tem de ter colhão de aço igual o Super Homem. Não é a toa que toda vez que você vê a revistinha ele ta lá, só comendo aquela repórter que é sempre a mesma.É lógico, ele tem saco de aço. 

 - Aí você tem razão,mulher perturba demais,só quer saber de si.

 - É, nisso aí você falou a coisa certa,o cara não pode sair de casa pra tomar uma cerveja que já vem reclamação. 

- Bom,meus companheiros, ta na hora de fechar o bar, vamo engolindo o que ta no copo pra gente ir embora porque ta tarde e todo mundo aqui tem família. 

- Como assim? Não da tempo de tomar mais uma? 

- Pezinho, o bar abriu meio dia, você chega quando ta faltando meia hora pra fechar e ainda quer reclamar ? Pelamordedeus, né! 

- Ah, não,desse jeito eu vou parar de freqüentar esse bar. Não tem condições. Vou começar ir lá no seu Chico, que ele não enjeita cliente. Aqui a gente quer beber e não pode.

 - Amanhã pode. 

- Té amanhã Pelé. Coloca o meu na conta. 

- Té amanhã, Quinzão. Té amanhã, Pezinho.Marca o seu também? 

- Marca sim, por favor.Té amanhã, fica com deus. 

- Amém.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

POW !

Vagabundo tem medo de nada não.Mexe,mexe pra ver ! Powpow! E virou a esquina pra subir o morro. Passo largo, cada pé de chinelo enlameado querendo uma direção, lupa na cara, bombeta pra trás. Trepado, como sempre. A lupa é style. E daí que ta escurão de chuva? Fez força, respirou fundo, subidinha desgraçada ,essa.
Andar trepado é pra impor respeito,Ta ligado?aqui na minha área tem dessa não, até os rato cinza pede licença pra subir, senão é dois no peito e um na cara. Daqui de cima mesmo, powpow! Irmão não, com os irmãozinho é na paz, na paz do nosso senhor Jesus Cristo.
Virou outra esquina e topou com um bocado de gente correndo. Pensou logo que tavam tentando tomar a biqueira do Marquinho Pescoço , sacou do tresoitão e subiu correndo, sete diabos em cada olho.
Deu de cara com o Gordo que nem reparou na arma.Mano, tua casa caiu, o gordo falou mas logo viu que ele tinha entendido tudo errado, que tava achando que era coisa dos inimigo, né isso não,neguim, a chuva levou uma pá de barraco lá pra baixo,tua casa foi  junto.
Tu viu minha vó, Gordo? Falae,mano!Tu viu minha vó? O gordo diz que ninguém viu  tia Maria não e ele corre. Arma no barro.Corre, mesmo sem agüentar.

Vó ! Vó  ! Vovó  ! 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A FESTA DE SAN GENNARO

Na rua gelada,quase ninguém. Mulher, então, só em pensamento. Já passava das oito da noite e os quatro lá no bar aturavam calados um programa policial em que o apresentador gorducho com cara de panetone mandava prender e arrebentar com meio mundo. Fazer o que se era o único canal que pegava sem chiado? Esse gordo só fala merda foi o que o Hélio disse quando desligou a TV e foi lavar os copos. Barulho de água na cuba da pia, barulho de copo batendo com copo e barulho do jogo chocho de sinuca. De resto, silêncio.

Zumba se irritou, largou o taco na mesa e foi pro balcão. Rildo não entendeu que não ia ter mais jogo e ficou lá com olhar perdido esperando o adversário que não voltava.
-         O Zumba, ce não vai jogar mais não?
Não, ele respondeu sem nem olhar pra trás, concentrado apenas na sua cerveja.
 Parecia um caramujo ali no canto do bar.
De repente chega o Sérgio,bem vestido, grisalho bem penteado e com um sorriso que não combinava com o ambiente.Cumprimentou todo mundo e soltou o convite:

-         Pessoal, ta rolando a Festa de São Gennaro lá na Mooca.
-         Ta frio pra caramba. Semana que vem a gente vai.- respondeu Rildo com voz de preguiça.
-         Semana que vem não tem mais. A festa acaba amanhã e domingo não vira. Tem que ser hoje.

Ele esperou bem uns dois minutos por uma resposta que não veio e então lamuriou que aqui a coisa não ta fácil não, já se conformando em passar mais um sábado em Utinga, quando surpreendentemente o Zumba virou para trás, ergueu as sobrancelhas, mirou nos olhos de cada um e disparou:
-         Eu topo! Vamo nessa !
Levantou como se tivesse hora marcada , anunciou pro Hélio que as daquela noite iam pra pindura e ordenou a saída dos companheiros com um “vambora galera” a que ninguém ousou contestar. Lá a gente toma vinho pra esquentar o Rildo disse mais pra si mesmo que pros outros. Paulinho saltou do banco, ajeitou o boné e abriu um sorriso. Sérgio reparou que o Zumba tava bem chumbado, devia ter mamado o dia inteiro, mas preferiu não comentar com ninguém .

Descidão de vinte, vinte e cinco minutos até a Estação Utinga e o pessoal torcendo pra ver muita mulher gostosa, de repente até se dar bem. Não ia ser fácil não, é festa família, muita velharada, muito casalzinho. Mas também que se foda, vamos comer e beber pra cacete disse o Paulinho. Pessoal só estranhou que a empolgação do Zumba passou quando ele entrou no trem. Até São Caetano ele foi quieto, mas lá pela Tamanduateí ele resmungou pra janela que não tava muito legal.
“Come um chocolate que você melhora” sugeriu o Rildo que, com tom de urgência na voz, pediu para o Paulinho abordar um ambulante. Zumba ruminou aquele doce estranho, meio cinzento.

Foi outra caminhada longa da estação Mooca até que se avistasse a fumaça dos carrinhos de milho verde, os vendedores de algodão-doce e os casais de namorados se aquecendo. O Zumba foi se arrastando no meio do mundaréu de gente , pálido, sem conseguir andar em linha reta por vinte segundos que fosse. Sérgio ia na frente, orgulhoso, satisfeito e foi o primeiro a notar um par de pernas morenas, compridas e maravilhosas perto da barraca de fogazzas, mas também foi o último a perceber o tombo que o  Zumba levou ao não conseguir superar uma lombada pouco antes da faixa que dizia “Bem vindos à Festa de San Gennaro”.

Ele rolou pro lado, gemeu, tentou levantar mas não conseguiu. De repente abriu um clarão em sua volta  e uma roda enorme de curiosos o cercaram, como se tivesse um defunto ali no chão. Os amigos tentaram convence-lo a se levantar e andar, menos pelo seu bem do que pela vergonha da situação. No rosto do Sérgio um misto de decepção e raiva.

-         Pai, ele ta doente? – pergunta uma menina de uns quatro anos que ia se juntar as outras mais de trinta na fila do pula-pula ali do lado.
-         Doente nada, filha, isso é cachaça !

Rildo se comove com a dor no rosto do amigo e vai buscar água num bar próximo, na certeza de que isso ia funcionar como remédio. Tem de pedir uma dezena de licenças para chegar até lá . Paulinho,preocupado, vai até o policial de plantão perguntar por uma ambulância. O polícia dá de ombros, diz que não tem ambulância lá e que quem  quisesse que fosse até o pronto socorro mais próximo. Paulinho explica que não conhece bem a região, pede indicação de como chegar mas não recebe resposta além de um “pega um taxi”, sugestão que ele apresenta aos amigos e é rejeitada de pronto por Sérgio. Zumba rasteja até a calçada  onde fica sentado,cabeça nos joelhos. De um homem, ali, só o bagaço.

Algumas garrafinhas de água depois o Zumba se levanta, diz que acha que quebrou o braço e pede pela jaqueta do Paulinho para improvisar uma tipóia. Todo mundo sabia que ele não tinha quebrado nada mas preferem deixar pra lá e fazer a tal tipóia, que ficou uma coisa meio ridícula de se ver.
O pessoal ainda perambulou algu tempo pela festa mas já sem reparar na mulherada.Comeram um pouco,beberam um pouco e pegaram o caminho de casa.
No trem, após quase vomitar em cima de duas moças, Zumba voltou encolhido.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Um samba para Dalvinha

Lauro adentrou a Padaria Utinga com aquela negritude que maquiava os mais de setenta na carteira de identidade e não cabia no esguio metro e sessenta e nove de altura  .  Pulôver azul-marinho por cima da camisa, gola azul-claro para fora. Cabelo baixinho,  inexplicavelmente só umas pitadas brancas. Unhas feitas.

Cumprimentou os amigos com forte aperto de mão e um sorriso enorme. Aos demais, aceno de cabeça. Quem olhava firme para ele, do outro lado do balcão , era seu amor platônico, Dalvinha, uma pernambucana jovem e  invocada que falava aos trancos e a quem ele vivia dedicando sambas-enredo compostos no fundo do copo. No  carnaval anterior ele até arriscara uns passinhos na calçada entoando:

É nada, é
É sim é não
É a Dalvinha, falando palavrão !

Desta vez, ao contrário de sempre, não foi dar um beijo no rosto de sua musa nem sequer permaneceu dentro da padaria. Foi para a calçada sentir o frio da tarde cinza onde colocou a cabeça pela janela, olhou para a amada com ódio e cantou sua versão do rockinho jovem guarda “Feiticeira”:
- Fofoqueira, fofoqueeeeira

Como resposta ouviu :
-Ta fazendo isso, cantando essas merda só porque  eu que já sei que fica você ,sua neta e suas mulher que você tem por aí fuçando minha vida nas internet. Eu falo mesmo, falo pra quem tem ouvido e quiser ouvir !

Ele então recolhe a cabeça de volta pra calçada como uma tartaruga amedrontada e balbucia,murcho:
-ela descobriu tudo, ela descobriu tudo...

Neste carnaval, Dalvinha ficou sem samba.