quarta-feira, 14 de junho de 2017

SEGURANÇA

Era um apartamento em um prédio antigo na Santa Cecília. “Herança do meu avô”, ela explicou, ao pegar com um movimento rápido um gato que parecia uma bola de pelo, antes que ele escapasse pela porta.
- É só tocar a campainha que ele corre pra tentar fugir, esse pilantrinha”, me disse, completando- entra, por favor.
Era uma ruiva magra, bonita, com lá seus trinta anos e nada de maquiagem .Cabelo comprido e levemente cacheado, blusinha branca sem manga, os braços branquelos de fora e um saião estampado que ia até o pé. Andava descalça, as unhas dos pés estavam bem feitas, esmalte vermelho. O ruivo do cabelo parecia falso. Talvez, na verdade, fosse loira. Ruiva normalmente tem a cara enferrujada, ela não tinha. Não sei por que alguém não gostaria de ser loira.
 Se afsatou para eu entrar, fechou a porta e soltou o gato , que deu uma corridinha pra longe de mim e depois parou pra se lamber.

Pediu ,com muita educação, pra eu tirar os sapatos, depois me disse para sentar em um sofá vermelho com pés de madeira. Me trouxe suco gelado e umas bolachas daquelas com um monte de grãos, tipo comida de passarinho, que ela colocou numa tigela de bambu . A sala era toda cheia de estilo, com móveis antigos e enfeites com cara de terem sido comprados em alguma loja bacana, quadros com pinturas que não dava pra entender exatamente o que eram  e um monte de livros e discos antigos. Pela casa, imaginei que ela fosse professora de faculdade. Na parede de frente para o sofá, um quadro vermelho daquele cara  cubano de boina. A moça provavelmente era  comunista, mas aparentava ser boa pessoa.

Em seguida ela acendeu um incenso e o colocou sobre uma cômoda de madeira toda trabalhada que ficava ao lado de um Buda de pedra de uns cinquenta centímetros e me disse com voz suave igual professora de criança:
- Querido, fecha os olhos.
Só que eu achei aquilo estranho e não obedeci de imediato, o que a irritou um pouco.
- Tá com medo de quê, amor? – Fechei os olhos e ela prosseguiu, voltando com a voz suave de professora de criança - Agora respira fundo. Iiiisso! Relaxa a musculatura, solta os ombros, sacode os braços – Obedeci e ela repetiu-  Iiiiisso. Aqui não é lugar de tensão, só de tesão, disse, dando uma risadinha. Agora abre os olhos devagar, beeem devagar. Iiiisso. Agora tira esse paletó e essa gravata. Pode ficar só de camisa. Primeiro que eu acho isso brega demais e, na boa, roupa preta aqui em casa não. Só pra te explicar, aqui em casa a gente não anda de sapatos pra não trazer as energias negativas da rua, entende . Olha, eu te contratei como segurança mas eu quero que você entenda o que a gente faz aqui. Sabe eu detesto entrar numa exposição e ver os seguranças parecendo umas estátuas alheios a tudo o que está em volta deles. Sabe, eu busco sempre um contato mais humano com os empregados. Rashtag por um mundo mais humano. Você me entende, né?
Respondi que sim, mas era mentira. Ela sorriu  sem mostrar os dentes e cerrando os olhos. Sei lá se aquilo era sincero. Devia ser, ela parecia boa gente. Me arrumou uma calça branca de linho que alguém tinha esquecido lá e continuou explicando um monte de maluquices enquanto espalhava pela sala travessas com petiscos e me orientava arrastar o sofá e a cômoda (com cuidado para não derrubar o incenso ) e assim abrir espaço na sala. Arrastei também o Buda, pesadíssimo, com o maior cuidado do mundo. Precisei colocar um lençol debaixo dele para não riscar o piso de taco. Ela não parava de falar.

- Você vai trabalhar, mas também vai ser parte pulsante, vai estar conectado. Isso aqui é um  sarau, mas não um sarau convencional, só com arte e falação. Nós procuramos aprofundar também o lado espiritual, buscar uma vivência mais elevada. Não é só a poesia, não é só a meditação, é tudo isso junto. Aqui nós buscamos uma vida plena, uma vida completa. A carne é o caminho para o espírito e vice-versa. Você entende o que eu estou te falando, né?
Respondi que sim, mas de novo era mentira. Ela deu aquele sorriso outra vez.
- Você só vai precisar fazer alguma coisa caso alguém dê ruim e passe do ponto. Aí você faz uns primeiros socorros e tal. Nos quartos você não precisa entrar, ok. Imaginei que ali iria rolar sacanagem. Só por deus, eu falei pra mim mesmo. Talvez fosse uma daquelas festas de suruba, se bem que ela não tinha cara de quem faz suruba. Ela continuou falando.
- Ah, e se você perceber que alguém vai se jogar da janela não deixa, por favor. Da última vez o Guto transcendeu , ignorou todas as barreiras e quase que me acontece uma tragédia. Lógico que teria uma poesia no ato, mas...melhor não, né? Melhor passar a noite sem um suicídio. – e riu, dessa vez com gosto -  Ah e se algum vizinho mau humorado bater na porta você conversa com ele, tá? Tem um pessoal reaça aqui que adora bancar o estraga-prazeres. E riu gostoso de novo, me dando um tapinha no peito.

Ela me ofereceu café e eu fiquei lá de bobeira por uns vinte minutos . Fiz alongamento, recomendação dela, e assisti TV. Quando tocou a campainha ela desligou o aparelho e pediu para que eu atendesse a porta, enquanto corria para pegar o gato no colo. Entraram de uma vez umas oito ou nove pessoas barulhentas. À frente um rapaz tão branco e magro que parecia uma lagartixa, com bigode ralo e cabelo muito preto grudado na cabeça por causa do gel. Por último entrou um daqueles homens enormes que se fantasiam de mulher, de vestido ,todo maquiado e com cara de capeta. Berrava elogios ao apartamento. Tudo pra ele era lindo, até um cinzeiro de vidro. Fechei a porta e a patroa soltou o gato, que correu assustado pra cozinha. Ela deu um abraço demorado em cada um, inclusive no fantasiado , que disse, berrando, que ela era linda ,maravilhosa e poderosa.  Por último abraçou o branquelo de bigodinho.

- Kaíiiique, amor da minha vida ! A única pessoa que entra toda de preto na minha casa.
Um negrão mais preto do que eu olhou na minha direção e falou para a patroa “namorado novo ou vai ter go-go boy ?. Ela gargalhou e fez com a cabeça que não.”nem uma coisa nem outra”, ela respondeu e ele, rindo, fez “hmm”. Em uma hora o apartamento parecia pequeno de lotado que estava, tinha provavelmente umas vinte e cinco ou trinta pessoas lá dentro, bebendo e conversando, um bocado deles fumando maconha. Me ofereceram cinco vezes. Eu recusei e não interferi, já que tinha sido avisado pra deixar o pessoal da marola fumar em paz  . Um rapaz me perguntou onde havia cerveja, eu corri e lhe trouxe uma Stella e ele agradeceu dizendo “obrigado, querido, você é um doce”.
Um fulano sem camisa, de barba enorme e coque, começou a bater palmas e chamar as pessoas.
“Nós vamos meditar. Se você quiser, pode participar, mas não esquece o que eu falei sobre a janela” , a patroa me disse. Achei melhor não participar do quer que fosse aquilo e ficar de olho na janela, e na porta também, caso alguém tocasse a campainha.
Rolou uma música que devia ser indiana, o povo desandou a pular de olhos fechados, cada um onde estava, uns na cozinha, outros na sala ou até na lavanderia, se sacudiam feito uns doidos. ”A mente se liberta e a alma se expande enquanto o corpo se move”, o barbudo disse, e foi a única coisa que ele falou. Um garoto com uma cabeleira bombril deu uma estrela em direção à janela . Eu corri, saltei e o agarrei,como se fosse um goleiro. Em resposta, ele me abraçou,ou melhor, grudou em mim como um carrapato. Eu não sabia se me desvencilhava ou se esperava ele me soltar. Por fim ele me soltou e deu outra estrela, esta em direção à cozinha, o que espantou o gato, que devia estar escondido em algum canto lá dentro.

A tal meditação acabou, eles aplaudiram sei lá o que e a patroa gritou a uma menina pequena, magra e careca, que podia começar a rolar o som. Ela colocou os fones de ouvido e soltou uma música eletrônica. O pessoal começou a dançar.
Uma moça bonita ,muito branca , toda tatuada, com pernas enormes estufando  a minissaia,  mas com cara de chapad,a  se aproximou de mim segurando uma taça de vinho e ,sem rodeios , me perguntou qual a minha “especialização”.
- Segurança, respondi.
- A psicologia é um trabalho lindo, ela disse, e desatou a falar- Restabelecer a segurança é TUDO, a gente precisa enfrentar os fantasmas internos, os nossos demônios, mas sozinho não rola, né. A gente precisa de vocês. Eu mesmo faço análise faz doze anos. A gente sempre tem alguma coisa para aprender a respeito de si mesmo. Esse mergulho nas nossas profundezas, na nossa sombra...Ela parou, gargalhou e continuou-  olha eu, a louca Junguiana, falando em sombra.Daqui a pouco to só nos arquétipos. Se minha analista, que é Lacan de carteirinha, me ouve falar assim, ela me mata – e gargalhou de novo, tomando toda a taça de uma só golada. O gato continuava agoniado para lá e para cá, parecia procurar uma brecha para escapar ou algum lugar pra ficar onde não houvesse gente se sacudindo.

Com uma mão ela me abraçou pela cintura , pegou na minha bunda, arregalou os olhos e disse, uau, maior que a minha” e logo em seguida perguntou se eu tinha pó. Eu disse que não e ela falou que ia pegar com alguém de nome esquisito e já voltava. Eu pensei em perguntar para a patroa se eu devia reprimir o comportamento da moça e coibir o uso do entorpecente mas bem na hora ela desligou a música, bateu palmas e pediu atenção de todos. Achei melhor eu ficar onde estava.
- Vai começar a performance da Kaíque . Por favor, todo mundo para a sala, ela disse.
O pessoal obedeceu e se amontoou  para assistir por cinco minutos Kaíque ficar sem mover um dedo, feito uma estátua, até, de repente, dar um berro assustador, desabar ruidosamente no chão e começar a estrebuchar e grunhir. Identifiquei um ataque epilético e pensei em pular sobre Kaíque e puxar sua língua para impedir que ela fosse mastigada, evitando, assim, um sufocamento com o próprio sangue. Só que no mesmo instante tocou a campainha. Provavelmente era algum vizinho que tinha se assustado com o grito.  Olhei para a patroa em busca de um sinal de como eu devia proceder,se salvava Kaíque ou atendia a porta, mas ela fez com a cabeça que não. Entendi que, por algum motivo, eu devia ficar onde estava. A campainha insistia.

O problema foi que Kaíque começou a rolar pelo chão dando uns chutes no vazio, como se levasse choques elétricos. Isso não seria nada demais para aquele lugar de gente doida, só  que um dos chutes atingiu o gato bem na cabeça quando ele corria pela sala em direção à porta. O golpe foi tão forte que o animal nem gritou, ficou tendo espasmos por alguns segundos morreu.
A patroa deu um berro e correu para pegar o bichinho nos braços. Olhava inconformada para o animal e para Kaíque, que continuava de olhos fechados , rolando e chutando. Só parou quando levou uma bicuda certeira no nariz. Kaíque levantou com os olhos estalados, sem acreditar no sangue que corria em seu rosto. A campainha , que já estava histérica, ganhou acompanhamento de murros na porta.

- Fiiiilha da puta ! Sua cheiradora do caralho, você matou meu gato ! Berrou a patroa.
Kaíque se levantou para pedir desculpas, mas levou outro chute, desta vez no peto, e caiu para trás, batendo as costas no Buda. Aquilo deve ter doído.  Eu me joguei na frente de Kaíque, que a essa altura eu já não sabia se era homem ou mulher, para impedir outra agressão, mas a patroa disparou
- Seu merda! Que porra você veio fazer aqui? Você não consegue proteger nem um gato e quer ser segurança? Seu pau no cu. Pega aquela bosta de paletó horroroso e desaparece daqui. E avisa aquela porra de empresa que eles não vão receber nem um centavo.
Uns desviavam o olhar, outros, inclusive a morena que achou que eu fosse psicólogo, me olharam com desprezo. Calcei as meias e os sapatos, peguei o paletó e a gravata, que nem meus eram, joguei no ombro e fui embora. Quando abri a porta, um velho baixinho e barrigudo, vestindo pijamas, berrou um monte de desaforos para mim. Passe direto por ele. Ouvi, da escada, um “vai tomar no cu, seu Adolfo”, dito pela dona do apartamento. Só depois vi que eu ainda estava com a calça branca. Nem tive cara de voltar lá para devolver e pegar a da empresa.

Não é fácil perder um bichinho que você ama, eu sei. Mas se ela não pagar a empresa e ainda me esculachar pro Robertão, eu to fodido. Não da pra arriscar perder emprego nessa época de crise não. As contas não esperam ninguém arrumar trabalho. Eu devia ter tirado aquele gato de lá, de algum jeito. Ela não parecia má pessoa.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

AMIGO

“Amigo ! Amigo ! Não me deixa sozinho!”, eu disse, enquanto ele desfalecia, sem força para manter sequer sua cabeça erguida. No seu rosto, fraqueza, rendição. Não tinha mais a beleza que todos elogiavam, sua face era cadavérica e os olhos não fitavam coisa alguma.

Ele não morreu. Alguma melhora depois e já voltara a andar, subir sozinho no sofá ou na cama, apesar de ainda não se alimentar sozinho, dependendo do soro intravenoso para sobreviver. A magreza ainda era a mesma,a respiração , pesada e sofrida. O rosto continuava sem expressão. Eu o fitava e sentia saudades daquela barrigona  boa de acariciar, do seu peso no meu peito, da força enorme de suas articulações, da sua alegria quando eu voltava para casa. Mas, sobretudo, sentia saudades de quando ele me olhava com aquele olhar de gratidão por eu ter lhe dado um lar.
Na verdade, é quase certo que a gratidão que eu via em seus olhos não era senão a projeção da minha própria gratidão, a que eu sentia por sua companhia naqueles dias, seguramente os mais difíceis de minha vida. Dívida, estresse , me vendo à beira da falência, todo dia eu achava que iria quebrar mentalmente, cair em depressão ou em desespero, perder o controle, enfim. Bastava reencontrá-lo em casa , recebê-lo em meus braços e ganhar de presente aquele olhar para me esquecer de todo  sofrimento e agonia que queria me tomar cada minuto da minha vida e que levava, inclusive, boa parte de meu sono. O único porto seguro era tê-lo no colo, talvez por isso dormíamos tantas vezes abraçados, numa paz mútua.

 Nunca o vi como um filho, uma criança de quem eu precisava cuidar, mas sim como um bom amigo, que, mesmo sem falar minha língua, me entendia. Ou talvez falássemos a mesma língua sim, uma vez que quando eu imitava aqueles seus sons engraçados ele me respondia com os mesmos barulhinhos. Certo dia, enquanto ele parecia sem forças para se mover e seu  olhar estava perdido, eu voltei a imitá-lo, na tentativa sem esperanças de ter novamente sua atenção. Ele fez um esforço absurdo e alcançou meu colo. Eu mal contive as lágrimas.

“Amigo! Amigo!” eu falei, quase gritando, quando o vi convulsionar. Os dentes cerrados, os olhos em agonia. Estava claro que não havia tempo para socorro. Tomei-o em meus braços e falei, baixinho, “amigo, amigo”. Acariciei seus pêlos como sempre fiz, beijei sua cabeça. Testei o pulso várias vezes, procurei inutilmente ouvir alguma respiração. Me recusei a não tê-lo junto ao meu peito antes de chegar a hora de entregar seu corpo ao veterinário. Doeu como o inferno senti-lo esfriar. Pouco a pouco fui me sentindo sozinho e chorei tudo aquilo que ele tinha me impedido de chorar naqueles últimos meses.

O Gato (esse era mesmo seu nome)  havia vivido toda sua vida nas ruas, somente os últimos sete meses foram em minha casa. Gosto de pensar que foram melhores para nós dois porque os passamos juntos. Como bons amigos.


Obrigado, Gato !







segunda-feira, 9 de maio de 2016

BALA NA CABEÇA

- Ae, truta, como é que tu tem coragem de chegar na minha cara e falar que não tem a grana, seu arrombado do caralho ? Não é problema meu que o nóia do teu irmão é um pau no cu e  largou você e tua mãe aí com conta pra pagar. Tá certo? Você tem sorte que eu sou sangue bom e eu tenho consideração pelo teu finado pai ,por que o certo era meter uma bala na sua cara AGORA. Ta ligado?  Ó, vou te falar, se isso aqui cai nos ouvido do Sapo Boi, truta, já era, ele manda nóis partir pro arrebento e arregaçar com a tua família TODA .Ta ligado? Então SE VIRA, vai robá, vai dar o cu, não sei, mas me aparece aqui com a grana amanhã ! Ta certo ? AMANHÃ !

Mateus saiu de lá tonto. Os cambitos pretinhos tremiam que só faltavam se bater. Não sabe como não se mijou. Em casa, não quis ver a novela com a mãe e jantou em silêncio, apesar da insistência dela em fazê-lo conversar. Mentiu que na manhã seguinte não iria para a escola porque os professores estariam em greve. Era impossível esquecer aquele sujeito de rosto comprido e ossudo, com olhos esbugalhados, esfregando o cano gelado da arma na sua testa.

Sentiu um desespero que nunca tinha sentido. Onde iria conseguir aquele dinheiro todo? Passou a noite e a manhã seguinte pensando numa solução. Com o que ganhava vendendo amendoim no semáforo ia levar uns dois meses pra pagar a dívida, isso ainda se não tivesse que ajudar em casa. Mas tinha. As faxinas da mãe rendiam um bom dinheiro, mas que não dava pra aluguel, despesa e as necessidades da neném. Pra ele mesmo sobrava muito pouco. E ia pedir emprestado para quem se só tinha amigo e parente pobre igual a ele?
Pensou então numa saída. Lembrou que havia um jeito fácil de roubar, a molecada fazia isso direto e eles diziam que era bem pouco arriscado, bastava chegar na avenida na hora do engarrafamento, enfiar o braço dentro de algum carro e pegar o que desse, relógio, celular,bolsa. Nem precisaria ir armado, era só colocar a mão por dentro da blusa para fazer o dedo indicador parecer o cano de um revólver .  “Escolhe carro de mulher, mulher se caga a toa, entrega fácil.”, aconselhou um amigo por whatsapp.

Fazer o que, era o único jeito. E lá se foi ele. Ficou sentado de cócoras debaixo do viaduto,atrás de uma coluna para não chamar a atenção, suando com o calor e assistindo a hora do rush se formar. Procurou por um carrão dirigido por alguma mulher. Achou um civic prata. Avançou.
Deu duas pancadinhas no vidro, fez cara de mal e apontou sua “arma” para a vítima, que ,apavorada sem poder acelerar o veículo, abriu  a janela e entregou a bolsa. Fácil.  “Celular também”, ele gritou e ela ia entregar mas suas mãos tremiam tanto que o aparelho caiu para debaixo do banco.  Ele ferveu de ódio. Ia precisar roubar pelo menos mais dois carros para garantir que sairia de lá com o dinheiro necessário. Não podia perder tempo. Então berrou “anda logo, porra” e ela,  chorando e implorando para não ser morta, começou a tatear pelo carpete, por debaixo do tapete, dizendo “calma,menino,calma”.

O assalto provocou alvoroço e os carros em volta começaram um buzinasso ensurdecedor, como uma manada em pânico. O coração de Mateus disparou e ele berrou de novo, mas dessa vez ameaçou: “anda logo senão te mato, sua vadia”. Ela finalmente encontrou o celular e o entregou , ainda chorando. Alguns veículos para trás, um jovem bastante forte percebeu que o garoto não estava armado e desceu do carro. Sorrateiro,aproximou-se sem ser notado e deu o bote  passando-lhe o bíceps enorme em volta do pescoço, na tentativa de estrangulá-lo. Mateus esperneou e escapou, mas só para levar um soco que o atirou, grogue, ao chão. O celular roubado caiu e se espatifou , bem como a bolsa, que espalhou um bocado de tranqueiras pelo chão. Mateus esticou o braço para pegá-la, e, mesmo recebendo uma sequência de chutes, não se deteve até puxá-la para dentro da posição fetal em que se protegia das pancadas.  O asfalto lhe fritava o rosto, as canelas e os pés, já sem os chinelos. A mulher roubada desceu do carro e,enfurecida,  começou estocar-lhe na cabeça com o salto agulha. Outras pessoas se encorajaram e deixaram seus veículos. Um homem veio correndo com um pedaço de madeira que se partiu nas suas costas. Mesmo assim não largava a bolsa. Abriu o olho que dava para abrir e viu um homem gordo dando nó em uma corda. Aquilo lhe deu pânico. Tirou forças ninguém entendeu de onde e se levantou metendo as duas mãos no peito do gordo, que caiu para trás e foi atingido por uma moto que cruzava em alta velocidade o corredor entre os carros. As pessoas , em desespero, foram socorrê-lo e Mateus aproveitou para fugir , levando a bolsa pendurada no ombro.

Correu por uns dois quarteirões, com as pernas e o pulmão pegando fogo, até a rua dos craqueiros, onde ninguém ia se arriscar a procurá-lo. Chegando lá abriu desesperado a bolsa com se fosse um faminto avançando num prato de comida ,nem ligou pro sangue que não parava de descer do seu rosto. Só que sentiu o estômago gelar quando viu que ela estava praticamente vazia. Lá dentro só coisas inúteis, lenços umedecidos, chaves, uma fotografia, um batom. O que quer que tivesse de valor lá dentro tinha ficado pela avenida no meio da confusão. Desatou a chorar por que imaginou a si mesmo e a mãe levando tiros na cabeça e a irmãzinha sendo entregue a algum parente qualquer. Depois de um tempo, secou as lágrimas e resolveu tomar uma atitude drástica. Iria na biqueira entregar a bolsa, de repente tinha um bom valor, era bolsa de madame. Podia ser até importada. Mas,fosse como fosse, iria dizer que, se tivessem que matar alguém, que fosse ele. Que deixassem sua mãe em paz. Não ia dar mesmo pra fugir e levar a mãe e a irmã . De repente eles admiravam sua honestidade e lhe davam outra chance.

Chegou lá de cabeça erguida, carregando a bolsa dentro de um saco de lixo, para não chamar a atenção, e avistou o rapaz do rosto ossudo. Ele, e mais um garoto, os dois segurando fuzis, olharam surpresa para Mateus, que não teve sequer a chance de dizer uma palavra.
- Aeee, muleke !! Virou celebridade, ein. Passou no Datena, no Marcelo Rezende e naquele outro... como é que é mesmo o nome dele? Ô Palito, como chama aquele que tem cara de viado?
- Luis Bacci.
- É  esse aí mesmo, o Luis Bacci. Tu apareceu lá também. Filmaram com o celular você levando cacete.  Mó barato, eles tudo tão querendo arrancar teu couro, dizendo que tem de parar de passar a mão na cabeça dos de menor , que tem que quebrar a molecada no pau mesmo, aquelas coisas de sempre. Ae Palito, seu cuzão do caralho,  ta vendo como é que tem que ser? O moleque aí, ó, sozinho,desarmado, levando porrada e ainda conseguiu matar um e fugir. Vê se aprende,porra. Naquela fita lá cê se fudeu.  Ó,moleque,  é o seguinte, Sapo Boi mandou dizer que aquela dívida lá já era. Ta certo? E tem outra coisa, mandou entregar pra ti essa arma aqui,ó, que é pra você fazer seus corre, pra não ficar levando porrada na cara e também pra não ter mais que viver mais na esculhambação debaixo de sol no farol, levando esculacho de bacana filho da puta dentro de carrão. Daí você da uma condição melhor pra tua velha, que teu pai não pôde dar. Tá ligado.  De repente da até pra dar um trato no teu barraco. E tem outra coisa...não, não é assim que se fala. Ô Palito, como é que é aquele comercial lá que é cheio de vantagem, o cara compra um negócio e não para de ganhar as coisas? Aquele um que passa no intervalo daquele programa que tem uma mulher gorda que faz fofoca dos artistas, aquela Mama Buceta. Como é que é aquela propaganda ?
-“Calma, não acabou. Você ainda ganha inteiramente grátis essa raquete pra matar mosquitos da dengue”
- É isso aí memo ! Não acabou, tem mais coisa boa pra ti. Se liga, moleque, esse Palito é foda, ele tem uma memória do caralho. Outro dia ele cantou uma música do tempo que a gente era pivete, daqueles Mamões..
- Mamonas.
- Eu, sei, Palito, caralho, só falei errado. Tomá no cu, porra, mania do caralho de ficar corrigindo os outros ! Então moleque, ele cantou a música lá do robô viado...porra, do caralho, aquela época a gente era feliz e nem sabia. Porra, cê nem sabe a consideração que eu tenho pelo teu pai. Ele catava lá os papelão dele na rua, se fodia debaixo de chuva, ganhava uma miséria com aquilo mas sempre trazia um saquinho de bala pra molecada. Você era neném ,não lembra disso. Se liga só, meu olho até enche de lágrima. Se eu pegasse o arrombado que atropelou ele e sumiu eu dava um tiro no cu do filho duma puta.

Bom, então é o seguinte, Sapo Boi falou que se você quiser entrar no esquema com nóis é só colar aqui e trocar uma idéia com ele. Se quiser se virar sozinho, aí é contigo, ninguém vai te incomodar. Só não vem zoar aqui na área senão é caixão, e cê sabe disso. Tá certo? Ó, e outra coisa, teu irmão aqui ninguém quer ver nem pintado de ouro ! Entendeu? Negócio agora é entre nós e você, se ele apareceu aqui, acabou a amizade ! Tá certo ?
Eles se cumprimentaram e ele ficou sabendo que o rapaz de rosto ossudo se chamava Daniel.

Em casa, sozinho no quarto, Mateus ficou horas contemplando a arma que acabara de ganhar.

quinta-feira, 3 de março de 2016

HOJE EM DIA A GENTE SAI DE CASA E NÃO SABE SE VOLTA



-          Meu deus, filho, você vai sair e deixar o seu quarto DESSE jeito? Puxa vida, quantas vezes eu já te falei pra não largar tudo espalhado assim?Isso aqui ta parecendo um chiqueiro. Olha só esse guarda-roupa, ta tudo socado aqui dentro. Agora a pouco abri e caiu uma luva de boxe na minha cabeça !
-          Essa luva aí você pode jogar fora  ,mãe, porque o Paulinho não volta mais pro Thai não, tava apanhando muito. Pediu pra sair ! Hahahahaha. Só tem tamanho, é fortão mas não é de nada ! hahahha
-          Cala boca, trouxa ! Ta querendo levar umas porradas?
-          Vai chamar quem pra me bater? Seu namorado? HHAHAHAH Por que você mesmo só sabe apanhar Hahahahaha
-          Ô, vamos parar vocês dois! Uma hora dessas e eu tendo que arrumar o quarto de dois marmanjos...Ninguém merece!
-          Isso é que é vida boa, senhor Paulo...Com os mesmos 25 anos eu trabalhava em dois empregos para pagar essa casa aqui. E a Dona Clarice, grávida de você, me dando trabalho todo dia....
-          Eu dando trabalho? Como assim dando trabalho?
-          Mãezona, pode deixar que amanhã eu arrumo tudo, ta bom?
-          Ah, ta ! Duvido. Se eu não arrumar agora vai é me sobrar mais serviço pra amanhã... Mas vem cá, Osni, que história é essa de que eu te dava trabalho?
-          Prometo, mãezona . E, pai, vê se não fica me ligando de madrugada por que hoje eu não vou chegar cedo não, a balada vai ser boa.
-          Vê se você não vai naqueles funks que o pessoal faz na rua porque nesses lugares só tem bandido, ein !
-          É, não se mete com essa gente não, pelo amor de deus ! E come alguma coisa antes de sair, Paulinho, por favor !
-          Eu como na rua mesmo, mãe, não se preocupa ! Pai, fica tranqüilo que eu não vou pro fluxo não.
-          Pra onde?
-          Fluxo é onde rola o funk pai, mas o Paulinho é cagão , ele não vai lá não hahahaha
-          Vai se foder, moleque, a hora que você comer alguém você vem falar comigo seu cuzão !
-          Ôoo ! Olha a boca ! Mais respeito nessa casa ! E, Mateusinho, dá um tempo, para de pirraçar seu irmão. Que bobeira, isso ! Criancice ! Paulinho,pelo menos vai mastigando alguma coisa. Toma, pega esse pedaço de pizza. Eu sei que vocês ficam bebendo a noite toda, daí se esquecem de comer e quando vai ver passa mal.
-          Vê se não vai beber muito, ein rapaz ! Toma cuidado. Não vai inventar de correr demais com o carro, ein
-          Ta bom, gente , todo sábado vocês me falam a mesma coisa e eu sempre chego inteiro em casa.
-          Vai com deus, filho- disseram os pais, ao mesmo tempo.

Paulo encontrou os amigos num posto de gasolina onde o pessoal encosta os carros para ouvir funk e fazer o esquenta bebendo batida e bomberinho, antes de irem para uma balada sertaneja “só com mina top” , conforme descrevera o amigo Bruno . guardando assim uma grana pra impressionar depois com o que desse para comprar de whiskie e Red Bull.
Ficaram uma hora e nesse tempo todo Paulo não conseguia tirar os olhos da menina de aparência frágil e rosto delicado que conversava com algumas amigas, ali perto do grupo dele. Bruno avisou,irritado, que não era pra ele ficar enrolando e nem “levar a mina pra balada”, por que lá a gente vai caçar”.
Sem querer perder tempo então ele se aproximou, disse oi para a garota, beijou-a no rosto e disse, “prazer, eu sou o  Ricardo e te achei muito gata”. Ela agradeceu com um sorriso sem graça, um tanto forçado e,sem dizer seu nome,  virou para conversar novamente com as suas amigas.
Contrariado com o pouco caso e percebendo o olhar gozador dos amigos, Paulo pegou a garota pelo braço,colou o rosto ao dela e começou a cochichar mais alguns elogios. Ela se desvencilhou  e,irritada, disse que estava acompanhada. Ele riu, duvidou, achou que era charminho, grudou de novo e disse, sussurrando em seu ouvido, que não tinha visto ninguém com ela e em seguida deu-lhe uma mordida na orelha, enfiou a língua no ouvido e começou a passar a mão numa das coxas, mesmo com ela dizendo para ele parar e tentando se afastar a todo custo. Ricardo só parou mesmo quando ouviu um “tira a mão da minha mina, cuzão do caralho”.
Mal olhou para trás e já levou um sopapo que o jogou no chão. A mãozada quem deu foi uma garota quase da sua altura, gorda,de ombros largos e cabelo corte mlitar.
Doeu. Cortou o canto da boca e escorreu um fiozinho de sangue. Ele levantou furioso, ofendido, e respondeu com um soco que pegou logo abaixo do olho direito dela e que ,pela força, a empurrou para trás, cambaleante. Paulo se frustrou, queria ter acertado o nariz, quebrado o nariz e foi nessa intenção que avançou, entrelaçou os dedos das suas  duas mãos por detrás da nuca da garota e, num golpe de muay thai, puxou sua cabeça para baixo de modo que fosse de encontro a uma violenta joelhada. Ela tentou se proteger com as mãos mas ele desferiu mais dois golpes sendo que o último entrou livre,em cheio. A calça dele ficou suja com o sangue da garota, que desabou no chão. No meio daquele sangue todo ele viu que tinha lhe cortado a boca, o supercílio e a testa, mas o nariz continuava intacto. Com ódio, desferiu um chute poderoso, como se estivesse batendo um pênalti. Este sim destroçou a cartilagem do nariz, que ficou torto, amassado,deformado. Não parecia mais um nariz. Ela respirou sangue, engasgou e sufocou. Ele continuou chutando, na cabeça, na nuca, nos seios. Só parou quando os amigos, berrando “já chega, parou,parou” ,o puxaram pelo braço.
Fugiram dali em seguida.
No dia seguinte Ricardo dormiu até tarde, afinal chegara em casa só às sete da manhã.
Enquanto preparava o almoço, Dona Clarice ouvia um apresentador  falara indignado sobre a morte de uma garota num posto de gasolina. Um pouco preocupada com o filho, um pouco desiludida com o mundo, suspirou para si mesma:

- Que tristeza. Hoje em dia a gente sai de casa e não sabe se volta.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Na rua, na chuva,na fazenda...

 A rua com aquela infinidade de gente e eles dois, sem saber, em rota de colisão.
Assim que ficaram frente a frente abriram cada qual um sorriso que veio sem aviso, como um espasmo ou um movimento involuntário do estômago, daqueles que constrange. Não era pra ter sorriso, ou, pelo menos, não um tão flagrantemente sincero. No inocente beijo na bochecha sentiram a quentura da boca e da pele .
Tão logo se deram conta de quem eram, esfriaram e murcharam. Fizeram  perguntas que dispensam respostas, disseram meia dúzia de trivialidades. 
Despediram-se com beijo covarde e, embora desejassem um ao outro, desejaram-se, apenas, tudo de bom. 


terça-feira, 9 de setembro de 2014

HIATO

A vida toda foi assim: a cada ditongo,um tombo. No entanto ele não desiste e ainda aguarda,esperançoso,pela próxima vogal.

terça-feira, 27 de maio de 2014

PROVA DE FOGO

Geraldinho entrou no bar com uma pisadona firme de pé direito,como se esmagasse uma bituca. Rangeu os dentes, espremeu o rosto negro. Sabia que era tudo ou nada, ou encarava ou era veado. Ele não ia dar para trás porque não tinha dessa de gore-goré, de fugir da raia, de inventar lorota pra se acovardar. Era um baixinho braçudo e capoeira, não tinha medo de cara-feia nem de briga de murro. Pra se bater com ele tinha de ser na faca e olhe lá. E era bebedor dos brabos, não havia de ser a pinga a lhe derrubar. O problema mesmo era a pimenta. Pra que foi inventar isso de pimenta?

Só que ele não podia nem lembrar da cara do Demar ,com aquela vozinha de quenga dizendo que ele não era homem pra tomar um litro de pinga, um copo depois do outro,ali, bem na frente de todo mundo. Quem era o Demar? Um bostinha, um Zé-ninguém,um Zé-Bosta. Não agüentava um tapa. O sangue esquentou tanto que ele disse que não só tomava tudo como derrubava também o potinho da pimenta que o pessoal usava pra dar um grau no churrasquinho do Beto Pescoço. Se imaginou botando tudo pra dentro e dizendo, bem na cara do covarde, “você não passa de um Zé-Bosta, Demar, isso que você é.Um Zé-Bosta”.
Tudo bem engrossar com o babaca, mas não devia ter falado em pimenta. Olhou pra um lado e pro outro procurando pelo desafeto,mas não o encontrou.

-         Tá vendo isso, seu Geraldo, assim é que é bom. Quando o pessoal começa a cantar é que começa a gastar, disse o Beto, que tomava conta do boteco naquele dia.O Boca-murcha tinha saído pra levar a mulher ao médico.
Só aí Geraldinho notou que o pessoal comia e bebia enquanto cantarolava Retalhos de Cetim,do Benito, bem a música que ele gostava de cantar quando já estava meio alto de bebida.


Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei
.

Fingiu que não deu bola pro Benito e pediu pela 51, “uma dose não, a garrafa”. Zé Pescoço tentou demove-lo da idéia. “Pra que isso, seu Geraldo,não da bola pro Demar não, deixa isso pra lá”. Não adiantou nada porque ele se enfezou e tomou os dois potinhos ,o de pimenta e o de farinha, misturou tudo e fez uma maçaroca rosa. Meteu uma colherada cheia na boca e disse, cuspindo uns grumos no balcão, pro Beto Pescoço dar logo a pinga senão aquilo não ia descer. 

Beto cedeu e ele começou a beber. Em pouco tempo tinha os olhos vermelho-sague. Não soube como chegou em casa, só se viu na cama, vomitando, sem tempo nem força de chegar no banheiro. A cama dava piruetas.Veio diarréia e febre alta,o estômago em brasa. Dor nos ossos,nos músculos,por dentro,por fora. Até que passou. Três dias trancado em casa sofrendo e ele finalmente estava pronto pra outra e,mais do que isso, pra humilhar de vez o Demar.


“Um Zé-Bosta daquele acha que pode me tirar?É um coitado. Não tem porra nenhuma ,só é metido a rico. Não agüenta um tapa. Deixa ele ficar arrastando as asas pra Do Carmo,deixa. Por acaso ele pensa que ela vai querer alguma coisa com um bostinha que nem ele?”.