Na rua gelada,quase ninguém. Mulher, então, só em pensamento. Já passava das oito da noite e os quatro lá no bar aturavam calados um programa policial em que o apresentador gorducho com cara de panetone mandava prender e arrebentar com meio mundo. Fazer o que se era o único canal que pegava sem chiado? Esse gordo só fala merda foi o que o Hélio disse quando desligou a TV e foi lavar os copos. Barulho de água na cuba da pia, barulho de copo batendo com copo e barulho do jogo chocho de sinuca. De resto, silêncio.
Zumba se irritou, largou o taco na mesa e foi pro balcão. Rildo não entendeu que não ia ter mais jogo e ficou lá com olhar perdido esperando o adversário que não voltava.
- O Zumba, ce não vai jogar mais não?
Não, ele respondeu sem nem olhar pra trás, concentrado apenas na sua cerveja.
Parecia um caramujo ali no canto do bar.
De repente chega o Sérgio,bem vestido, grisalho bem penteado e com um sorriso que não combinava com o ambiente.Cumprimentou todo mundo e soltou o convite:
- Pessoal, ta rolando a Festa de São Gennaro lá na Mooca.
- Ta frio pra caramba. Semana que vem a gente vai.- respondeu Rildo com voz de preguiça.
- Semana que vem não tem mais. A festa acaba amanhã e domingo não vira. Tem que ser hoje.
Ele esperou bem uns dois minutos por uma resposta que não veio e então lamuriou que aqui a coisa não ta fácil não, já se conformando em passar mais um sábado em Utinga, quando surpreendentemente o Zumba virou para trás, ergueu as sobrancelhas, mirou nos olhos de cada um e disparou:
- Eu topo! Vamo nessa !
Levantou como se tivesse hora marcada , anunciou pro Hélio que as daquela noite iam pra pindura e ordenou a saída dos companheiros com um “vambora galera” a que ninguém ousou contestar. Lá a gente toma vinho pra esquentar o Rildo disse mais pra si mesmo que pros outros. Paulinho saltou do banco, ajeitou o boné e abriu um sorriso. Sérgio reparou que o Zumba tava bem chumbado, devia ter mamado o dia inteiro, mas preferiu não comentar com ninguém .
Descidão de vinte, vinte e cinco minutos até a Estação Utinga e o pessoal torcendo pra ver muita mulher gostosa, de repente até se dar bem. Não ia ser fácil não, é festa família, muita velharada, muito casalzinho. Mas também que se foda, vamos comer e beber pra cacete disse o Paulinho. Pessoal só estranhou que a empolgação do Zumba passou quando ele entrou no trem. Até São Caetano ele foi quieto, mas lá pela Tamanduateí ele resmungou pra janela que não tava muito legal.
“Come um chocolate que você melhora” sugeriu o Rildo que, com tom de urgência na voz, pediu para o Paulinho abordar um ambulante. Zumba ruminou aquele doce estranho, meio cinzento.
Foi outra caminhada longa da estação Mooca até que se avistasse a fumaça dos carrinhos de milho verde, os vendedores de algodão-doce e os casais de namorados se aquecendo. O Zumba foi se arrastando no meio do mundaréu de gente , pálido, sem conseguir andar em linha reta por vinte segundos que fosse. Sérgio ia na frente, orgulhoso, satisfeito e foi o primeiro a notar um par de pernas morenas, compridas e maravilhosas perto da barraca de fogazzas, mas também foi o último a perceber o tombo que o Zumba levou ao não conseguir superar uma lombada pouco antes da faixa que dizia “Bem vindos à Festa de San Gennaro”.
Ele rolou pro lado, gemeu, tentou levantar mas não conseguiu. De repente abriu um clarão em sua volta e uma roda enorme de curiosos o cercaram, como se tivesse um defunto ali no chão. Os amigos tentaram convence-lo a se levantar e andar, menos pelo seu bem do que pela vergonha da situação. No rosto do Sérgio um misto de decepção e raiva.
- Pai, ele ta doente? – pergunta uma menina de uns quatro anos que ia se juntar as outras mais de trinta na fila do pula-pula ali do lado.
- Doente nada, filha, isso é cachaça !
Rildo se comove com a dor no rosto do amigo e vai buscar água num bar próximo, na certeza de que isso ia funcionar como remédio. Tem de pedir uma dezena de licenças para chegar até lá . Paulinho,preocupado, vai até o policial de plantão perguntar por uma ambulância. O polícia dá de ombros, diz que não tem ambulância lá e que quem quisesse que fosse até o pronto socorro mais próximo. Paulinho explica que não conhece bem a região, pede indicação de como chegar mas não recebe resposta além de um “pega um taxi”, sugestão que ele apresenta aos amigos e é rejeitada de pronto por Sérgio. Zumba rasteja até a calçada onde fica sentado,cabeça nos joelhos. De um homem, ali, só o bagaço.
Algumas garrafinhas de água depois o Zumba se levanta, diz que acha que quebrou o braço e pede pela jaqueta do Paulinho para improvisar uma tipóia. Todo mundo sabia que ele não tinha quebrado nada mas preferem deixar pra lá e fazer a tal tipóia, que ficou uma coisa meio ridícula de se ver.
O pessoal ainda perambulou algu tempo pela festa mas já sem reparar na mulherada.Comeram um pouco,beberam um pouco e pegaram o caminho de casa.
No trem, após quase vomitar em cima de duas moças, Zumba voltou encolhido.
