A vida toda foi assim: a cada ditongo,um tombo. No
entanto ele não desiste e ainda aguarda,esperançoso,pela próxima vogal.
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 9 de setembro de 2014
terça-feira, 27 de maio de 2014
PROVA DE FOGO
Geraldinho
entrou no bar com uma pisadona firme de pé direito,como se esmagasse uma
bituca. Rangeu os dentes, espremeu o rosto negro. Sabia que era tudo ou nada,
ou encarava ou era veado. Ele não ia dar para trás porque não tinha dessa de
gore-goré, de fugir da raia, de inventar lorota pra se acovardar. Era um
baixinho braçudo e capoeira, não tinha medo de cara-feia nem de briga de murro.
Pra se bater com ele tinha de ser na faca e olhe lá. E era bebedor dos brabos,
não havia de ser a pinga a lhe derrubar. O problema mesmo era a pimenta. Pra
que foi inventar isso de pimenta?
Só que ele não podia nem lembrar
da cara do Demar ,com aquela vozinha de quenga dizendo que ele não era homem
pra tomar um litro de pinga, um copo depois do outro,ali, bem na frente de todo
mundo. Quem era o Demar? Um bostinha, um Zé-ninguém,um Zé-Bosta. Não agüentava
um tapa. O sangue esquentou tanto que ele disse que não só tomava tudo como
derrubava também o potinho da pimenta que o pessoal usava pra dar um grau no
churrasquinho do Beto Pescoço. Se imaginou botando tudo pra dentro e dizendo,
bem na cara do covarde, “você não passa de um Zé-Bosta, Demar, isso que você
é.Um Zé-Bosta”.
Tudo bem
engrossar com o babaca, mas não devia ter falado em pimenta. Olhou pra um lado
e pro outro procurando pelo desafeto,mas não o encontrou.
-
Tá vendo isso, seu Geraldo, assim é que é bom. Quando o
pessoal começa a cantar é que começa a gastar, disse o Beto, que tomava conta
do boteco naquele dia.O Boca-murcha tinha saído pra levar a mulher ao médico.
Só aí Geraldinho
notou que o pessoal comia e bebia enquanto cantarolava Retalhos de Cetim,do
Benito, bem a música que ele gostava de cantar quando já estava meio alto de
bebida.
Eu dormi o ano inteiro,
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.
E ela jurou desfilar pra mim.
Mas chegou o carnaval,
E ela não desfilou,
Eu chorei na avenida, eu chorei.
Não pensei que mentia a cabrocha,que eu tanto amei.
Fingiu que não deu bola pro Benito e pediu pela 51, “uma dose não, a
garrafa”. Zé Pescoço tentou demove-lo da idéia. “Pra que isso, seu Geraldo,não
da bola pro Demar não, deixa isso pra lá”. Não adiantou nada porque ele se
enfezou e tomou os dois potinhos ,o de pimenta e o de farinha, misturou tudo e
fez uma maçaroca rosa. Meteu uma colherada cheia na boca e disse, cuspindo uns
grumos no balcão, pro Beto Pescoço dar logo a pinga senão aquilo não ia descer.
Beto cedeu e ele começou a beber. Em pouco tempo tinha os olhos vermelho-sague.
Não soube como chegou em casa, só se viu na cama, vomitando, sem tempo nem
força de chegar no banheiro. A cama dava piruetas.Veio diarréia e febre alta,o
estômago em brasa. Dor nos ossos,nos músculos,por dentro,por fora. Até que
passou. Três dias trancado em casa sofrendo e ele finalmente estava pronto pra
outra e,mais do que isso, pra humilhar de vez o Demar.
“Um Zé-Bosta daquele acha que pode me tirar?É um coitado. Não tem porra
nenhuma ,só é metido a rico. Não agüenta um tapa. Deixa ele ficar arrastando as
asas pra Do Carmo,deixa. Por acaso ele pensa que ela vai querer alguma coisa
com um bostinha que nem ele?”.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
terça-feira, 26 de novembro de 2013
NOITE
Cueca boxer Calvin
Klein vermelha (assinatura gravada no elástico), jeans Cavalera (preto
envelhecido), cinto de couro preto (fivela redonda) detalhes costurados em
vermelho.
Meia branca,bota
coturno West Coast preto(cadarços amarelos).
Camiseta baby-look
preta, gola V (Tapout).
Gel. Listerine.
Gel. Listerine.
Soco inglês.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
POW !
Vagabundo
tem medo de nada não.Mexe,mexe pra ver ! Powpow! E virou
a esquina pra subir o morro. Passo largo, cada pé de chinelo enlameado querendo
uma direção, lupa na cara, bombeta pra trás. Trepado, como sempre. A lupa é
style. E daí que ta escurão de chuva?
Fez força, respirou fundo, subidinha
desgraçada ,essa.
Andar
trepado é pra impor respeito,Ta ligado?aqui na minha área tem dessa não, até os rato cinza pede licença pra
subir, senão é dois no peito e um na cara. Daqui de cima mesmo, powpow! Irmão
não, com os irmãozinho é na paz, na paz do nosso senhor Jesus Cristo.
Virou outra esquina e topou com um bocado de gente
correndo. Pensou logo que tavam tentando tomar a biqueira do Marquinho Pescoço
, sacou do tresoitão e subiu correndo, sete diabos em cada olho.
Deu de cara com o Gordo que nem reparou na arma.Mano, tua casa caiu, o gordo falou mas
logo viu que ele tinha entendido tudo errado, que tava achando que era coisa
dos inimigo, né isso não,neguim, a chuva levou uma pá de barraco lá pra baixo,tua
casa foi junto.
Tu viu
minha vó, Gordo? Falae,mano!Tu viu minha vó? O gordo diz que ninguém
viu tia Maria não e ele corre. Arma no barro.Corre, mesmo sem agüentar.
Vó !
Vó ! Vovó !
quinta-feira, 18 de julho de 2013
A FESTA DE SAN GENNARO
Na rua gelada,quase ninguém. Mulher, então, só em pensamento. Já passava das oito da noite e os quatro lá no bar aturavam calados um programa policial em que o apresentador gorducho com cara de panetone mandava prender e arrebentar com meio mundo. Fazer o que se era o único canal que pegava sem chiado? Esse gordo só fala merda foi o que o Hélio disse quando desligou a TV e foi lavar os copos. Barulho de água na cuba da pia, barulho de copo batendo com copo e barulho do jogo chocho de sinuca. De resto, silêncio.
Zumba se irritou, largou o taco na mesa e foi pro balcão. Rildo não entendeu que não ia ter mais jogo e ficou lá com olhar perdido esperando o adversário que não voltava.
- O Zumba, ce não vai jogar mais não?
Não, ele respondeu sem nem olhar pra trás, concentrado apenas na sua cerveja.
Parecia um caramujo ali no canto do bar.
De repente chega o Sérgio,bem vestido, grisalho bem penteado e com um sorriso que não combinava com o ambiente.Cumprimentou todo mundo e soltou o convite:
- Pessoal, ta rolando a Festa de São Gennaro lá na Mooca.
- Ta frio pra caramba. Semana que vem a gente vai.- respondeu Rildo com voz de preguiça.
- Semana que vem não tem mais. A festa acaba amanhã e domingo não vira. Tem que ser hoje.
Ele esperou bem uns dois minutos por uma resposta que não veio e então lamuriou que aqui a coisa não ta fácil não, já se conformando em passar mais um sábado em Utinga, quando surpreendentemente o Zumba virou para trás, ergueu as sobrancelhas, mirou nos olhos de cada um e disparou:
- Eu topo! Vamo nessa !
Levantou como se tivesse hora marcada , anunciou pro Hélio que as daquela noite iam pra pindura e ordenou a saída dos companheiros com um “vambora galera” a que ninguém ousou contestar. Lá a gente toma vinho pra esquentar o Rildo disse mais pra si mesmo que pros outros. Paulinho saltou do banco, ajeitou o boné e abriu um sorriso. Sérgio reparou que o Zumba tava bem chumbado, devia ter mamado o dia inteiro, mas preferiu não comentar com ninguém .
Descidão de vinte, vinte e cinco minutos até a Estação Utinga e o pessoal torcendo pra ver muita mulher gostosa, de repente até se dar bem. Não ia ser fácil não, é festa família, muita velharada, muito casalzinho. Mas também que se foda, vamos comer e beber pra cacete disse o Paulinho. Pessoal só estranhou que a empolgação do Zumba passou quando ele entrou no trem. Até São Caetano ele foi quieto, mas lá pela Tamanduateí ele resmungou pra janela que não tava muito legal.
“Come um chocolate que você melhora” sugeriu o Rildo que, com tom de urgência na voz, pediu para o Paulinho abordar um ambulante. Zumba ruminou aquele doce estranho, meio cinzento.
Foi outra caminhada longa da estação Mooca até que se avistasse a fumaça dos carrinhos de milho verde, os vendedores de algodão-doce e os casais de namorados se aquecendo. O Zumba foi se arrastando no meio do mundaréu de gente , pálido, sem conseguir andar em linha reta por vinte segundos que fosse. Sérgio ia na frente, orgulhoso, satisfeito e foi o primeiro a notar um par de pernas morenas, compridas e maravilhosas perto da barraca de fogazzas, mas também foi o último a perceber o tombo que o Zumba levou ao não conseguir superar uma lombada pouco antes da faixa que dizia “Bem vindos à Festa de San Gennaro”.
Ele rolou pro lado, gemeu, tentou levantar mas não conseguiu. De repente abriu um clarão em sua volta e uma roda enorme de curiosos o cercaram, como se tivesse um defunto ali no chão. Os amigos tentaram convence-lo a se levantar e andar, menos pelo seu bem do que pela vergonha da situação. No rosto do Sérgio um misto de decepção e raiva.
- Pai, ele ta doente? – pergunta uma menina de uns quatro anos que ia se juntar as outras mais de trinta na fila do pula-pula ali do lado.
- Doente nada, filha, isso é cachaça !
Rildo se comove com a dor no rosto do amigo e vai buscar água num bar próximo, na certeza de que isso ia funcionar como remédio. Tem de pedir uma dezena de licenças para chegar até lá . Paulinho,preocupado, vai até o policial de plantão perguntar por uma ambulância. O polícia dá de ombros, diz que não tem ambulância lá e que quem quisesse que fosse até o pronto socorro mais próximo. Paulinho explica que não conhece bem a região, pede indicação de como chegar mas não recebe resposta além de um “pega um taxi”, sugestão que ele apresenta aos amigos e é rejeitada de pronto por Sérgio. Zumba rasteja até a calçada onde fica sentado,cabeça nos joelhos. De um homem, ali, só o bagaço.
Algumas garrafinhas de água depois o Zumba se levanta, diz que acha que quebrou o braço e pede pela jaqueta do Paulinho para improvisar uma tipóia. Todo mundo sabia que ele não tinha quebrado nada mas preferem deixar pra lá e fazer a tal tipóia, que ficou uma coisa meio ridícula de se ver.
O pessoal ainda perambulou algu tempo pela festa mas já sem reparar na mulherada.Comeram um pouco,beberam um pouco e pegaram o caminho de casa.
No trem, após quase vomitar em cima de duas moças, Zumba voltou encolhido.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Um samba para Dalvinha
Lauro adentrou a Padaria Utinga com aquela negritude que maquiava os mais de setenta na carteira de identidade e não cabia no esguio metro e sessenta e nove de altura . Pulôver azul-marinho por cima da camisa, gola azul-claro para fora. Cabelo baixinho, inexplicavelmente só umas pitadas brancas. Unhas feitas.
Cumprimentou os amigos com forte aperto de mão e um sorriso enorme. Aos demais, aceno de cabeça. Quem olhava firme para ele, do outro lado do balcão , era seu amor platônico, Dalvinha, uma pernambucana jovem e invocada que falava aos trancos e a quem ele vivia dedicando sambas-enredo compostos no fundo do copo. No carnaval anterior ele até arriscara uns passinhos na calçada entoando:
É nada, é
É sim é não
É a Dalvinha, falando palavrão !
Desta vez, ao contrário de sempre, não foi dar um beijo no rosto de sua musa nem sequer permaneceu dentro da padaria. Foi para a calçada sentir o frio da tarde cinza onde colocou a cabeça pela janela, olhou para a amada com ódio e cantou sua versão do rockinho jovem guarda “Feiticeira”:
- Fofoqueira, fofoqueeeeira
Como resposta ouviu :
-Ta fazendo isso, cantando essas merda só porque eu que já sei que fica você ,sua neta e suas mulher que você tem por aí fuçando minha vida nas internet. Eu falo mesmo, falo pra quem tem ouvido e quiser ouvir !
Ele então recolhe a cabeça de volta pra calçada como uma tartaruga amedrontada e balbucia,murcho:
-ela descobriu tudo, ela descobriu tudo...
Assinar:
Postagens (Atom)


