Lauro adentrou a Padaria Utinga com aquela negritude que maquiava os mais de setenta na carteira de identidade e não cabia no esguio metro e sessenta e nove de altura . Pulôver azul-marinho por cima da camisa, gola azul-claro para fora. Cabelo baixinho, inexplicavelmente só umas pitadas brancas. Unhas feitas.
Cumprimentou os amigos com forte aperto de mão e um sorriso enorme. Aos demais, aceno de cabeça. Quem olhava firme para ele, do outro lado do balcão , era seu amor platônico, Dalvinha, uma pernambucana jovem e invocada que falava aos trancos e a quem ele vivia dedicando sambas-enredo compostos no fundo do copo. No carnaval anterior ele até arriscara uns passinhos na calçada entoando:
É nada, é
É sim é não
É a Dalvinha, falando palavrão !
Desta vez, ao contrário de sempre, não foi dar um beijo no rosto de sua musa nem sequer permaneceu dentro da padaria. Foi para a calçada sentir o frio da tarde cinza onde colocou a cabeça pela janela, olhou para a amada com ódio e cantou sua versão do rockinho jovem guarda “Feiticeira”:
- Fofoqueira, fofoqueeeeira
Como resposta ouviu :
-Ta fazendo isso, cantando essas merda só porque eu que já sei que fica você ,sua neta e suas mulher que você tem por aí fuçando minha vida nas internet. Eu falo mesmo, falo pra quem tem ouvido e quiser ouvir !
Ele então recolhe a cabeça de volta pra calçada como uma tartaruga amedrontada e balbucia,murcho:
-ela descobriu tudo, ela descobriu tudo...

Show, Adilson! Vida longa ao blog, aos Lauros, Dalvinhas e vagões que passarão pela Estação Utinga. Muito bacana. Parabéns e estarei sempre aqui, na plataforma. Abraços
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